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O
desafio de formar leitores
Uma
das principais responsabilidades do professor é despertar o gosto
e, conseqüentemente, o hábito de ler entre as crianças.
Para que essa tarefa seja cumprida, preconiza Elizabeth Serra,
Secretária Geral da FNLIJ, é preciso formar professores
leitores familiarizados com a escrita. Assim, eles atuarão, com
autonomia e criatividade, na formação de estudantes leitores.
Criada em maio de
1968, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil
(FNLIJ) é uma das 68 seções nacionais do International
Bourd on Booh for Young People (IBBY). Seu objetivo é promover
a leitura por meio de literatura de qualidade. Baseada no princípio
de que a leitura de bons livros é fundamental para a paz e o
entendimento entre as pessoas, a instituição defende o
acesso à literatura para todos os jovens e crianças. E,
para alcançar seus objetivos, a FNLIJ lançou as bases
para o desenvolvimento dos primeiros estudos e ações institucionais
no campo da literatura infantil e juvenil, com foco na formação
de leitores. Há mais de 30 anos, a instituição
analisa a produção nacional de livros infantis e juvenis,
indicando, a cada dois anos, candidatos ao Prêmio Hans Christian
Andersen, do IBBY. Duas escritoras já foram vencedoras: Lygia
Bojunga, em 1982, e Ana Maria Machado, em 2000.
Em entrevista ao
Jornal Fundação Cargill, Elizabelh D'AngeIo
Serra, Secretária Geral da FNLIJ, falou sobre vários
temas relacionados à literatura e explicou o trabalho desenvolvido
pela instituição, desde 1974.
O governo quer
aumentar o índice de leitura (1,8 livro habitante/ano) em 50%.
Qual a sua opinião?
Elizabeth Serra: Somente dividir
o número de livros publicados pelo número de habitantes
nos parece frágil como demonstração de resultados
de uma ação política em benefício da população.
Há que se incluir outros parâmetros. O instrumento mais
usado é a aferição da capacidade de interpretação
de textos e da escrita, por exemplo.
Como conciliar
esse objetivo com o atual quadro educacional do país, que tem
cerca de 1,5 milhão de crianças longe das salas de aula?
E.S.: O importante é lembrarmos
que o número de crianças escolarizadas cresceu significativamente
nos últimos 10 anos. O problema da educação, hoje,
além de ter o desafio de incluir esse contingente é, igualmente,
o de formar professores-leitores familiarizados com a escrita para atuarem,
com autonomia e criatividade, na formação de estudantes
leitores. Somente se constituindo ele mesmo um leitor é que poderá
formar alunos leitores. E para isso não há receitas, apenas
a prática diária da leitura, que demanda livros à
volta e persistência.
Cite, por favor,
alguns projetos de incentivo à leitura da FNLIJ e quais as principais
regiões beneficiadas.
E.S.: Em 1982, a FNLIJ criou o programa
Ciranda de Livros, em parceria com a Fundação Roberto
Marinho e financiado pela Höescht, tendo sido o primeiro projeto
de âmbito nacional, que levou literatura infantil para as escolas
públicas mais carentes do Brasil. Outras ações
são o Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens
e o Circo das Letras, realizado em Fortaleza (CE), que promove
somente a leitura de livros, sem dramatizações e recursos
cênicos. Há, ainda, o concurso Os Melhores Programas
de Incentivo à Leitura para Crianças e Jovens de todo
o Brasil, já em sua 10ª versão. E, em parceria
com o Instituto Ecofuturo, destacamos o projeto Bibliotecas Comunitárias
Ler é Preciso, que já criou 25 unidades das 140 bibliotecas
comunitárias que se pretende em cinco anos.
O brasileiro
está se tornando mais consciente de que "ler é preciso"?
E.S.: Esse interesse e acesso ao
livro e à leitura no Brasil vêm melhorando nos últimos
20 anos. E isso é resultado direto do acesso à escola
pública, que possibilita, para a imensa maioria de nossas crianças
e jovens, o primeiro contato com o mundo escrito. Embora esse acesso
se dê principalmente por meio do livro didático (que em
nossa opinião não contribui para formar leitores), cada
vez mais o livro de literatura está presente nas salas de aula.
Como avaliar
a participação da família?
E.S.: Trata-se de um dos canais
determinantes para a formação de leitores. Mas a sua dificuldade
em acessar os livros justifica a ausência de condições
para a prática da leitura em casa. É necessária
que se planeje uma ação voltada para as famílias.
A formação de leitores é resultado dessa ação
conjunta entre a família, a escola e a sociedade.
Quais as dicas
para os professores?
E.S.: Embora aparentemente seja
muito simples e pequeno, o único caminho possível para
os professores despertarem e alimentarem em seus alunos o gosto pela
leitura exige determinação, interesse e paciência.
Não há uma receita mágica e uma solução
rápida. O caminho é procurar ler bons livros, conhecer
a produção e, também, conversar sobre as leituras
feitas. Para tanto, sugerimos aos professores que freqüentem feiras
de livros, que leiam jornais, revistas e que façam resenhas de
livros. Também é importante garantir o acesso permanente
a esses materiais.
Alguma outra
sugestão?
E.S.: Formar um grupo para conversar
sobre leituras com os colegas professores também possibilita
enormes descobertas de novos livros e da leitura. Juntos, eles podem
construir as bases para a conquista, tanto da direção
da escola como dos pais para a criação de bibliotecas,
com plano de compras anuais de livros. Uma escola comprometida com a
formação de alunos e professores leitores não deve
priorizar as salas com computadores em detrimento de una boa biblioteca.
Campanhas de doação de livros expressam a importância
que gestores e diretores dão ao livro.
Fonte:
Jornal da Fundação Cargill - Ano II - nº 3 - julho/agosto/setembro
2005
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