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A chegada do novo irmão

postado em 19 de nov de 2018 05:54 por ANA PAULA LOPES VIEIRA PAIVA   [ 30 de nov de 2018 17:07 atualizado‎(s)‎ ]

A chegada de uma nova criança em uma família costuma trazer transtornos para a vida dos irmãos, principalmente quando se é filho único. A maioria dos pais que passam por situações assim relata que os filhos manifestam alguns incômodos, havendo inclusive regressões em alguns aspectos, como, por exemplo, a criança voltar a falar como bebê. É comum a criança sentir-se ameaçada de perder o amor dos pais para o novo bebê que está chegando. Por isso, é freqüente apresentar comportamentos regredidos, como se quisesse ser novamente um bebê para garantir esse amor.

Muitas outras manifestações podem ocorrer como forma da criança, inconscientemente, chamar a atenção - ficar doente, tornar-se agressiva e brava são os casos mais comuns, embora cada uma reaja de modo próprio. Compreendendo certos aspectos, é possível aos pais auxiliar os filhos neste momento tão delicado.

Uma dica fundamental é não ignorar os sentimentos da criança, que neste caso, em sua grande maioria, serão negativos, tanto em relação a si mesma quanto em relação aos pais e ao novo irmãozinho que está para chegar. Muitos pais, na tentativa de garantir tranqüilidade e achando que criança não possui sentimentos negativos, insistem em dizer que ela amará o bebê, que serão amigos, que nada mudará e tudo será muito gostoso dali para frente. Possivelmente, esta criança se sentirá incompreendida naquilo que sente, e isso a deixará confusa e com sentimento de culpa.

Ter sentimentos negativos é próprio das pessoas e ignorá-los na criança em nada contribui para o seu desenvolvimento. Pelo contrário. Para sentir-se aliviada e compreendida, ela deve sentir que estamos percebendo seus sentimentos - e isso deve ocorrer da forma mais tranqüila possível. O ideal é oferecer à criança um espaço tranqüilo, de modo que possa dizer o que sente, sem recriminações e sem manifestação de surpresa por parte dos adultos. Procure tranqüilizá-la, dizendo para ela que é natural ter sentimentos ruins em relação ao irmãozinho que está para chegar ou que já chegou, permitindo a expressão de seus sentimentos.

Agindo desta forma, é possível evitar atitudes agressivas em relação ao bebê. Algumas crianças batem, mordem e beliscam seus irmãos. Por isso, deve-se deixar claro que podemos ter os sentimentos ruins, porém o que não se poder fazer é bater no bebê, ou seja, a ação concreta. Nos casos em que a criança está muito alterada, uma sugestão é oferecer um travesseiro ou almofada para que descarregue sua raiva.

Evite dizer à criança que após o nascimento do irmãozinho vai ser tudo igual e muito gostoso. Não é verdade, pois não será a mesma coisa para ninguém. Um bebê exige muitos cuidados e os pais dedicarão menos tempo ao irmão mais velho, e isso deve ser explicado para ele. Também é preciso dizer que o bebê chorará e que em algumas vezes vai incomodar.

Sintetizando, quero alertar com essas dicas simples e práticas que de nada adianta pintar o quadro mais bonito do que ele é. Que as crianças sofrerão com a vinda de outro irmão, não se tem dúvida, e por mais que as preparemos não será possível eliminar o sofrimento, por menor que seja. O que se deve fazer é ajudá-las a vivenciar da melhor maneira possível essa nova situação, sendo-lhes sempre assegurado o amor que os pais têm por elas.

Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga pela USP, especializada em Problemas de Aprendizagem. É co-autora do livro Puericultura - Princípios e Práticas, no qual aborda aspectos relacionados à estimulação cultural da criança. cassia@plugcom.net

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