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50 anos de TV no Brasil

postado em 16 de nov de 2018 14:06 por ANA PAULA LOPES VIEIRA PAIVA   [ 30 de nov de 2018 17:06 atualizado‎(s)‎ ]

A televisão faz 50 anos. Qual o grande papel que ela desempenha na sociedade e na educação? Para fazer uma análise desses 50 anos conversamos com um especialista, que talvez seja desconhecido do grande público. Mas é um grande ícone da televisão, publicidade, do rádio, da indústria fonográfica brasileira. Assistiu, de um dos poucos aparelhos, a primeira transmissão da TV, da antiga Rede Tupi. Acompanhou toda a evolução tecnológica e de programação. Aqui, ele fala da influência da televisão sobre as crianças e jovens. A TV e a educação. As ‘Telessalas’, que levam o saber através do país. Conheça um pouco da história desse importante e polêmico veículo de comunicação.

José Alliados Brasil Italo Scatena. Aos 82 anos possui uma carreira multifacetada, que se funde com a história da televisão, do rádio, da propaganda, da música e do teatro brasileiros. Entre outras coisas, foi o primeiro professor de rádio da Escola Superior de Propaganda e Marketing e fundador da Rádio Gravações Especializadas, a RGE, que lançou no mercado vários nomes que ficaram famosos, como Maísa, Juca Chaves, Miltinho, Helena de Lima, Orquestra do Maestro Erico Simonetti e Chico Buarque.

Televisão

Scatena se recorda da primeira transmissão de televisão realizada no Brasil. Assistiu em um dos poucos aparelhos existentes, que estava na vitrine de uma loja, em São Paulo. “Me lembro muito bem da expectativa que havia. Nós que vivíamos no meio publicitário, das verbas, dos anunciantes, não tínhamos muita esperança de que aquele lançamento ia ser alguma coisa que deitasse raízes. Nos perguntávamos quem iria tirar verbas do rádio, para aplicar na televisão. Isso iria demorar. Realmente demorou, mas aí temos a TV, consolidada. Chateaubriand fez um trabalho fantástico”.

A TV em cores foi outra evolução dolorosa. “Ela foi implantada por decreto no país. O então presidente Médici decretou que a transmissão do Campeonato Mundial de Futebol fosse colorida. Teve-se que comprar, às pressas, novos aparelhos e equipamentos caríssimos para transmitir a novidade”.

Educação

Depois de acompanhar esses 50 anos de história, José Scatena diz que a televisão brasileira deveria ter sido criada com a função de ser um veículo educador mas, como em qualquer parte, ela foi idealizada para ‘faturar’, ganhar dinheiro. “Fatura aquilo que o povo quer ver. A grande massa popular está sendo alimentada pelo esporte, que é a grande atração e leva milhões de reais para a TV e, finalmente, as novelas”.

Os programas educativos que existem hoje são raros. Programas como Xuxa, Eliana e outros tantos empobreceram a televisão brasileira, afirma Scatena. Vila Sésamo, O Sítio do Pica-Pau Amarelo e o Globinho trazem saudade: “O Sítio era de uma ternura, uma beleza, ao comover, ao fazer dar risada.

“Para Scatena, os desenhos animados e programas existentes hoje, nos quais há violência, morte, acusações, incitam as crianças e jovens a se tornarem violentos. “Ver o exemplo repetido diária, semanal, mensal e anualmente acaba criando essa coisa desastrosa que é a violência. Eu não deixaria meus netos assistirem tudo na TV. Eu usaria de artifícios para encaminhá-los ao que seria útil à cultura deles”.

97,5% dos domicílios brasileiros possuem pelo menos um aparelho de TV, o que representa um universo de 157,4 milhões de pessoas.

Os Telecursos são altamente benéficos e deveriam ter um espaço maior dentro da televisão. Há muita gente que gostaria de acompanhar, mas o horário de transmissão deveria ser mais flexível, afirma. “Há programação deveria dar uma dimensão muito maior para o ensino. Antes, quando eu estudava geografia, tinha que ficar imaginando onde ficavam as ilhas, continentes. Hoje, você viaja para lá, vê, através da tela da TV”.

A televisão tirou 50% da vontade e disponibilidade das crianças lerem livros. Mas ao mesmo tempo, abriu os outros 50% mostrando muita coisa que leva a criança a se interessar pela leitura. “Vi uma reportagem mostrando um grupo de crianças felizes, manipulando e lendo livros. Então se a TV causou mal, causou bem.”

Sua carreira

José Scatena é um homem simples. Aposentado há mais de 20 anos, não deixa transparecer, através de suas atitudes, a importância que teve e tem no cenário artístico do Brasil. Foi pioneiro em vários setores. Formou-se em Direito, embora nunca tenha exercido a profissão.

Sua carreira artística teve início em 1939, como rádio-ator na Rádio Difusora de São Paulo. Em 1940 começou a trabalhar na Stander Propaganda. Trabalhou na empresa durante oito anos, saindo para montar seu próprio negócio, a Rádio Gravações Especializadas, RGE Ltda, o primeiro estúdio de gravações comerciais do Brasil. Scatena é considerado o pioneiro, no meio publicitário, na produção de comerciais para rádio e TV.

No ano de 1973, devido a sua experiência, foi contratado como o primeiro professor de rádio da Escola Superior de Propaganda e Marketing, ESPM. Com o tempo, a RGE se dedicou à gravação de long plays. Vendeu a empresa, em 1967, para a Fermata Brasil. Montou, então, a Movie Center, que fazia locação de equipamentos para produção de filmes, em sociedade com o irmão e a filha.

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