Comportamento

A mídia como sala de aula

postado em 23 de nov de 2018 05:19 por ANA PAULA LOPES VIEIRA PAIVA   [ 30 de nov de 2018 17:07 atualizado‎(s)‎ ]

No próximo domingo, 18 de maio, o Brasil vai se mobilizar para o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual De Crianças e Adolescentes. Segundo o Laboratório de Estudos da Criança da USP, entre 1996 e 2002 foram registradas mais de seis mil ocorrências de violência sexual contra crianças e adolescentes. Já a ABRAPIA - Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência - recebeu, só ano passado, mais de 1500 denúncias de abuso sexual, sendo que 58% dos casos praticados por pessoas da família da vítima.

Várias entidades governamentais e não governamentais pretendem realizar uma campanha de incentivo às denúncias, entre elas a ANDI -Agência de Notícias dos Direitos da Criança. E é da própria ANDI um estudo divulgado recentemente, que indiretamente traz à tona um tema que ainda é um tabu nas escolas: como falar de sexo e sexualidade? A pesquisa "A Mídia como Consultório" traça um raio-X das chamadas Colunas de Consulta da mídia impressa e eletrônica - aquelas que trazem perguntas e respostas sobre saúde e comportamento. Segundo o estudo, 48% das perguntas identificadas são de adolescentes de 13 a 17 anos.

A pesquisa faz severas críticas quanto a forma superficial ou até desrespeitosa como algumas vezes público e tema são tratados. Mas de maneira geral elogia o papel e a contribuição da imprensa na formação dos adolescentes. De qualquer forma, esse estudo aprofundado coloca o ensino em xeque e mais uma vez levanta a polêmica sobre o preparo dos professores quando a sexualidade começa a aflorar em sala de aula. Pela pesquisa, apenas 0,4% dos especialistas dessas colunas são educadores ou orientadores sexuais.

Números da pesquisa

O estudo fez um mapeamento das colunas de jornais e revistas e programas rádio e TV. Foram incluídos a grande mídia e veículos especializados no público adolescente. Fica evidente que as Colunas de Consulta preenchem as lacunas deixadas pelo serviço público, incluindo-se aí atendimento médico, quando se trata de diagnóstico e prevenção e as escolas, no aspecto educativo. Pela pesquisa da ANDI, 70,9% dos adolescentes acham que as colunas são importantes para seu desenvolvimento; 30% procuram as colunas por vergonha de esclarecer as dúvidas com os pais; 3% das perguntas identificadas são de crianças de 10 a 12 anos. Sinal de que crianças estão tendo que esclarecer dúvidas por conta própria em veículos de outras faixas etárias.

Papel da escola

O professor e educador Samuel Ramos Lago acredita que é indiscutível a contribuição da imprensa na formação do adolescente. Quem não está cumprindo esse papel satisfatoriamente são as escolas. Samuel Lago conhece de longa data o tabu da sexualidade em sala de aula. Em 1970 ele lançou a Coleção Ciências e Escola Moderna, que desde então já vendeu mais de 15 milhões de exemplares, tornando-se o maior fenômeno editorial do segmento de livros didáticos. A maioria dos profissionais que hoje trabalham com Educação possivelmente já folheou os livros dessa coleção. Também na década de 70, como professor da rede pública, Samuel Lago já desenvolvia atividades de Orientação Sexual. Uma delas, relacionada a sexualidade, é justamente semelhante às colunas de perguntas e respostas, com bilhetinhos. No anonimato as crianças sentiam-se mais à vontade para falar sobre suas dúvidas. Outra atividade que o professor desenvolveu chama-se "Conheça seu corpo". Em cartolinas, os alunos desenham e recortam os órgãos reprodutores masculino e feminino. Depois, em outras duas cartolinas grandes, eles desenham o contorno de um corpo feminino e outro masculino. Aí, em conjunto, os alunos "montam" os aparelhos reprodutores de ambos os sexos.

Orientação do MEC

Os PCN - Parâmetros Curriculares Nacionais foram criados para nortear os conteúdos aplicados nas escolas de todo o país. O volume 10 traz como tema "Pluralidade Cultural e Orientação Sexual" e inclui uma pesquisa do Instituto DataFolha. 86% das pessoas ouvidas em 10 capitais brasileiras eram favoráveis à inclusão de Orientação Sexual nos currículos escolares. Os pais querem que a escola seja o ambiente seguro para a criança aprender sobre sexualidade. Mas, na prática, como eles gostariam que a questão fosse tratada? Formação moral, nível social e religião são apenas alguns dos obstáculos.

Qual seria então a idade ideal para que a sexualidade comece a fazer parte da formação da criança? "Desde que a criança nasce, o que muda é o modo de abordagem. Nas escolas, às vezes há distorções na forma e no momento de abordar sexo e sexualidade. Da quinta à oitava séries e no Ensino Médio tenta-se resolver o problema com palestras em anfiteatros. O grande problema está na base desta pirâmide, da primeira à quarta séries, quando a Orientação Sexual é claramente evitada por muitas escolas", destaca Samuel Lago. O professor lembra ainda que sexualidade envolve toda a formação cultural das pessoas e não apenas o ato sexual. "Há todo um lado sociocultural da sexualidade que deve ser levado em conta. A forma de abordagem vai influenciar na formação de conceitos como funções da mulher e do homem na sociedade, aceitação do outro sem discriminação ou preconceito. Não há consenso e é bom que não haja. Todos têm que assumir sua responsabilidade".

A chegada do novo irmão

postado em 19 de nov de 2018 05:54 por ANA PAULA LOPES VIEIRA PAIVA   [ 30 de nov de 2018 17:07 atualizado‎(s)‎ ]

A chegada de uma nova criança em uma família costuma trazer transtornos para a vida dos irmãos, principalmente quando se é filho único. A maioria dos pais que passam por situações assim relata que os filhos manifestam alguns incômodos, havendo inclusive regressões em alguns aspectos, como, por exemplo, a criança voltar a falar como bebê. É comum a criança sentir-se ameaçada de perder o amor dos pais para o novo bebê que está chegando. Por isso, é freqüente apresentar comportamentos regredidos, como se quisesse ser novamente um bebê para garantir esse amor.

Muitas outras manifestações podem ocorrer como forma da criança, inconscientemente, chamar a atenção - ficar doente, tornar-se agressiva e brava são os casos mais comuns, embora cada uma reaja de modo próprio. Compreendendo certos aspectos, é possível aos pais auxiliar os filhos neste momento tão delicado.

Uma dica fundamental é não ignorar os sentimentos da criança, que neste caso, em sua grande maioria, serão negativos, tanto em relação a si mesma quanto em relação aos pais e ao novo irmãozinho que está para chegar. Muitos pais, na tentativa de garantir tranqüilidade e achando que criança não possui sentimentos negativos, insistem em dizer que ela amará o bebê, que serão amigos, que nada mudará e tudo será muito gostoso dali para frente. Possivelmente, esta criança se sentirá incompreendida naquilo que sente, e isso a deixará confusa e com sentimento de culpa.

Ter sentimentos negativos é próprio das pessoas e ignorá-los na criança em nada contribui para o seu desenvolvimento. Pelo contrário. Para sentir-se aliviada e compreendida, ela deve sentir que estamos percebendo seus sentimentos - e isso deve ocorrer da forma mais tranqüila possível. O ideal é oferecer à criança um espaço tranqüilo, de modo que possa dizer o que sente, sem recriminações e sem manifestação de surpresa por parte dos adultos. Procure tranqüilizá-la, dizendo para ela que é natural ter sentimentos ruins em relação ao irmãozinho que está para chegar ou que já chegou, permitindo a expressão de seus sentimentos.

Agindo desta forma, é possível evitar atitudes agressivas em relação ao bebê. Algumas crianças batem, mordem e beliscam seus irmãos. Por isso, deve-se deixar claro que podemos ter os sentimentos ruins, porém o que não se poder fazer é bater no bebê, ou seja, a ação concreta. Nos casos em que a criança está muito alterada, uma sugestão é oferecer um travesseiro ou almofada para que descarregue sua raiva.

Evite dizer à criança que após o nascimento do irmãozinho vai ser tudo igual e muito gostoso. Não é verdade, pois não será a mesma coisa para ninguém. Um bebê exige muitos cuidados e os pais dedicarão menos tempo ao irmão mais velho, e isso deve ser explicado para ele. Também é preciso dizer que o bebê chorará e que em algumas vezes vai incomodar.

Sintetizando, quero alertar com essas dicas simples e práticas que de nada adianta pintar o quadro mais bonito do que ele é. Que as crianças sofrerão com a vinda de outro irmão, não se tem dúvida, e por mais que as preparemos não será possível eliminar o sofrimento, por menor que seja. O que se deve fazer é ajudá-las a vivenciar da melhor maneira possível essa nova situação, sendo-lhes sempre assegurado o amor que os pais têm por elas.

Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga pela USP, especializada em Problemas de Aprendizagem. É co-autora do livro Puericultura - Princípios e Práticas, no qual aborda aspectos relacionados à estimulação cultural da criança. cassia@plugcom.net

50 anos de TV no Brasil

postado em 16 de nov de 2018 14:06 por ANA PAULA LOPES VIEIRA PAIVA   [ 30 de nov de 2018 17:06 atualizado‎(s)‎ ]

A televisão faz 50 anos. Qual o grande papel que ela desempenha na sociedade e na educação? Para fazer uma análise desses 50 anos conversamos com um especialista, que talvez seja desconhecido do grande público. Mas é um grande ícone da televisão, publicidade, do rádio, da indústria fonográfica brasileira. Assistiu, de um dos poucos aparelhos, a primeira transmissão da TV, da antiga Rede Tupi. Acompanhou toda a evolução tecnológica e de programação. Aqui, ele fala da influência da televisão sobre as crianças e jovens. A TV e a educação. As ‘Telessalas’, que levam o saber através do país. Conheça um pouco da história desse importante e polêmico veículo de comunicação.

José Alliados Brasil Italo Scatena. Aos 82 anos possui uma carreira multifacetada, que se funde com a história da televisão, do rádio, da propaganda, da música e do teatro brasileiros. Entre outras coisas, foi o primeiro professor de rádio da Escola Superior de Propaganda e Marketing e fundador da Rádio Gravações Especializadas, a RGE, que lançou no mercado vários nomes que ficaram famosos, como Maísa, Juca Chaves, Miltinho, Helena de Lima, Orquestra do Maestro Erico Simonetti e Chico Buarque.

Televisão

Scatena se recorda da primeira transmissão de televisão realizada no Brasil. Assistiu em um dos poucos aparelhos existentes, que estava na vitrine de uma loja, em São Paulo. “Me lembro muito bem da expectativa que havia. Nós que vivíamos no meio publicitário, das verbas, dos anunciantes, não tínhamos muita esperança de que aquele lançamento ia ser alguma coisa que deitasse raízes. Nos perguntávamos quem iria tirar verbas do rádio, para aplicar na televisão. Isso iria demorar. Realmente demorou, mas aí temos a TV, consolidada. Chateaubriand fez um trabalho fantástico”.

A TV em cores foi outra evolução dolorosa. “Ela foi implantada por decreto no país. O então presidente Médici decretou que a transmissão do Campeonato Mundial de Futebol fosse colorida. Teve-se que comprar, às pressas, novos aparelhos e equipamentos caríssimos para transmitir a novidade”.

Educação

Depois de acompanhar esses 50 anos de história, José Scatena diz que a televisão brasileira deveria ter sido criada com a função de ser um veículo educador mas, como em qualquer parte, ela foi idealizada para ‘faturar’, ganhar dinheiro. “Fatura aquilo que o povo quer ver. A grande massa popular está sendo alimentada pelo esporte, que é a grande atração e leva milhões de reais para a TV e, finalmente, as novelas”.

Os programas educativos que existem hoje são raros. Programas como Xuxa, Eliana e outros tantos empobreceram a televisão brasileira, afirma Scatena. Vila Sésamo, O Sítio do Pica-Pau Amarelo e o Globinho trazem saudade: “O Sítio era de uma ternura, uma beleza, ao comover, ao fazer dar risada.

“Para Scatena, os desenhos animados e programas existentes hoje, nos quais há violência, morte, acusações, incitam as crianças e jovens a se tornarem violentos. “Ver o exemplo repetido diária, semanal, mensal e anualmente acaba criando essa coisa desastrosa que é a violência. Eu não deixaria meus netos assistirem tudo na TV. Eu usaria de artifícios para encaminhá-los ao que seria útil à cultura deles”.

97,5% dos domicílios brasileiros possuem pelo menos um aparelho de TV, o que representa um universo de 157,4 milhões de pessoas.

Os Telecursos são altamente benéficos e deveriam ter um espaço maior dentro da televisão. Há muita gente que gostaria de acompanhar, mas o horário de transmissão deveria ser mais flexível, afirma. “Há programação deveria dar uma dimensão muito maior para o ensino. Antes, quando eu estudava geografia, tinha que ficar imaginando onde ficavam as ilhas, continentes. Hoje, você viaja para lá, vê, através da tela da TV”.

A televisão tirou 50% da vontade e disponibilidade das crianças lerem livros. Mas ao mesmo tempo, abriu os outros 50% mostrando muita coisa que leva a criança a se interessar pela leitura. “Vi uma reportagem mostrando um grupo de crianças felizes, manipulando e lendo livros. Então se a TV causou mal, causou bem.”

Sua carreira

José Scatena é um homem simples. Aposentado há mais de 20 anos, não deixa transparecer, através de suas atitudes, a importância que teve e tem no cenário artístico do Brasil. Foi pioneiro em vários setores. Formou-se em Direito, embora nunca tenha exercido a profissão.

Sua carreira artística teve início em 1939, como rádio-ator na Rádio Difusora de São Paulo. Em 1940 começou a trabalhar na Stander Propaganda. Trabalhou na empresa durante oito anos, saindo para montar seu próprio negócio, a Rádio Gravações Especializadas, RGE Ltda, o primeiro estúdio de gravações comerciais do Brasil. Scatena é considerado o pioneiro, no meio publicitário, na produção de comerciais para rádio e TV.

No ano de 1973, devido a sua experiência, foi contratado como o primeiro professor de rádio da Escola Superior de Propaganda e Marketing, ESPM. Com o tempo, a RGE se dedicou à gravação de long plays. Vendeu a empresa, em 1967, para a Fermata Brasil. Montou, então, a Movie Center, que fazia locação de equipamentos para produção de filmes, em sociedade com o irmão e a filha.

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