| Doadores
de sangue omitem informações
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Fonte: Agência USP (Leonardo Zanon) Metade
dos doadores de sangue diagnosticados com HIV mentiu na entrevista de triagem
anterior à coleta, prosseguindo com a doação. Esta é
uma das constatações feitas por César de Almeida Neto em
sua tese de doutorado "Perfil epidemiológico de doadores de sangue
com diagnóstico sorológico de sífilis e HIV",
defendida em janeiro de 2008 na Faculdade de Medicina da USP. A pesquisa, realizada
entre 1999 e 2003, mostra que 48,9% dos doadores infectados sequer teriam feito
a coleta do sangue, caso não houvessem omitido informações
durante a entrevista.
Almeida Neto trabalha na Fundação Pró-Sangue,
onde é chefe do Departamento de Notificações e Orientação
de Doadores com Sorologias Alteradas. "Após a confirmação
do diagnóstico, quando o resultado dava positivo, muitas vezes a nova entrevista
realizada não batia com o que fora falado na triagem". Para Almeida
Neto, as omissões na triagem podem significar uma falta de credibilidade
da entrevista enquanto ferramenta de seleção de doadores. "Alguns
doadores podem achar a triagem preconceituosa e sem embasamento, o que não
acontece".
Neste sentido, o pesquisador procurou verificar a validade
da entrevista aplicada aos doadores, e acabou encontrando confirmação
científica para este tipo de triagem. Se bem aplicada, diminui os riscos
de transmissão, não só do HIV, como também de outros
agentes de doenças.
Entre os homens, foram comprovados como fatores
de risco para o HIV as relações sexuais com outros homens, as relações
sexuais em troca de dinheiro e ter tido relações sexuais com duas
ou mais parceiras nos últimos 12 meses. Almeida Neto também acredita
numa relação entre o HIV e as drogas injetáveis, mesmo que
nas entrevistas isso não tenha vindo à tona: "mesmo entre usuários
de drogas, existe um preconceito em assumir o uso de drogas injetáveis,
fazendo a pessoa negar o uso mesmo na entrevista pós diagnóstico.
No entanto, foi constatada uma relação forte entre a presença
do HIV e a sorologia positiva para Hepatite C, bastante comum entre esses usuários".
Entre
as mulheres, no entanto, os fatores de risco para o HIV não eram propriamente
delas, mas de seus parceiros sexuais. Mulheres com parceiros usuários de
drogas injetáveis e parceiros que tiveram cinco ou mais parceiras nos últimos
12 meses correm mais riscos de apresentar HIV positivo. "No caso das mulheres,
foram propostas triagens direcionadas ao comportamento também de seus parceiros",
explica.
Mudanças no perfil Para
o pesquisador, é importante manter uma triagem atualizada no que diz respeito
às doenças, em especial à aids: "O perfil da pessoa
com o HIV mudou bastante desde a epidemia dos anos 1980. Atualmente o perfil dos
infectados inclui muito mais mulheres, pessoas de baixa renda e do interior, e
a triagem precisa considerar estas mudanças".
Outra doença
que o médico considera negligenciada pelas campanhas de saúde e
pelos meios de comunicação é a sífilis. A pesquisa
mostra uma mudança também no perfil dos portadores de sífilis,
em relação aos que possuem a doença pregressa. "A sífilis
pregressa é característica de pessoas mais velhas, heterossexuais,
que tinham o hábito de freqüentar zonas de prostituição.
Hoje, os novos casos de sífilis são em pessoas novas, em geral homo
ou bissexuais", esclarece o pesquisador.
Existe ainda uma relação
entre a sífilis contraída recentemente e a infecção
pelo vírus da aids. A pesquisa de Almeida Neto mostrou que um portador
de sífilis recente tem 40 vezes mais chance de ser também um portador
do HIV, quando comparado aos portadores de sífilis pregressa. "Houve
uma mudança de comportamento das pessoas, uma mudança social, e
isso se reflete no rol de doadores".
Doação
ou diagnóstico? Os testes aplicados no sangue de doadores
no Brasil são capazes de identificar a infecção pelo HIV
a partir de quatro a oito semanas após o contágio. Almeida Neto
afirma que o exame é confiável, mas faz um apelo: "As pessoas
que estiverem com alguma suspeita em relação à sua saúde
não devem ir ao banco de sangue com o propósito de fazer um 'exame
de aids'. Para isso existem os Centros de Testagem e Aconselhamento, que realizam
exames gratuitamente e entregam os resultados mais rápido que os bancos".
O
médico acredita na necessidade de campanhas de educação sexual
e também para a formação de novos doadores, fidelizados aos
bancos de doação. "A partir dos 65 anos não se pode
doar mais sangue, daí a necessidade de termos pessoas jovens com o hábito
de doar, para mantermos tanto as transfusões quanto a produção
de medicamentos hemoderivados".
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