| Fundamentos
da educação
 Fonte:
Agência FAPESP (Alex Sander Alcantara) Uma
pesquisa, feita no campus de Ribeirão Preto da Universidade de São
Paulo, investigou a associação entre comportamento e desempenho
escolar entre meninos e meninas. O estudo indica como a qualidade das relações
estabelecidas na escola de educação infantil pode afetar o aprendizado
das crianças.
O trabalho avaliou o comportamento das meninas mais
positivamente, ao passo que o desempenho escolar foi mais fortemente associado
aos comportamentos interpessoais no grupo masculino. Para ambos os sexos, foram
avaliados o comportamento - na relação com a tarefa, com os colegas
e com o professor - e o desempenho a partir de sondagem de leitura e escrita.
Segundo a coordenadora do estudo, professora Edna Maria Marturano,
da Faculdade de Medicina, os resultados destacam uma clara associação
entre a qualidade dos comportamentos interativos, avaliados pelo professor no
fim do ano, e o desempenho em tarefas que envolvem noções básicas
de leitura e escrita.
"Mas as associações encontradas
não traduzem em si uma relação de causa e efeito. Interpretamos
os resultados com base em autores que acompanharam as crianças desde o
início até o fim do ano e observaram que a qualidade dos relacionamentos
da criança no primeiro momento influenciava o desempenho posterior",
disse Edna.
A pesquisa, que foi publicada na revista Psicologia em Estudo,
foi desenvolvida em escolas públicas municipais do interior de São
Paulo. Participaram 133 alunos, sendo 68 meninos e 65 meninas, de 5 a 7 anos de
idade, e seus professores (sete mulheres e um homem). O trabalho é resultado
da dissertação de mestrado da psicóloga Elaine Cristina Gardinal,
sob orientação de Edna.
Os professores consideraram os meninos
menos respeitosos, tolerantes e controladores no relacionamento com os colegas,
mas mais agressivos. Nas atividades escolares, eles são vistos como menos
ordeiros e aplicados, mas mais inquietos, salientes, desatentos, retraídos,
confusos e descuidados.
Segundo Edna, o fato de a maioria dos professores
ser do sexo feminino é uma variável que pode influenciar no resultado.
"A pesquisa discute essa possibilidade. Professoras de crianças pequenas
tendem a ignorar com mais freqüência os comportamentos inadequados
das meninas, prestando mais atenção aos dos meninos. Elas respondem
mais, e com mais atenção negativa, aos comportamentos dos meninos."
"No entanto, não temos conhecimento de estudos comparativos
mostrando que os professores homens agem ou agiriam de modo diferente. Eu mesma
tive oportunidade de observar um professor de educação infantil
que ignorava o choro das meninas e repreendia os meninos quando choravam, dizendo
que 'homem não chora'", disse.
As autoras aplicaram três
instrumentos para avaliar o comportamento, a capacidade intelectual e noções
de leitura e escrita, respectivamente: Questionário para Caracterização
do Desempenho e do Comportamento da Criança no Ambiente Escolar, Matrizes
Progressivas de Raven e o método de Sondagem de Leitura e Escrita Inicial.
Elaine e Edna detectaram que meninos e meninas com melhores resultados
em escrita e, principalmente, em leitura, foram avaliados como menos dependentes
nos relacionamentos com o professor e com os colegas de classe. A dependência
é apontada como prejudicial ao desempenho escolar das crianças na
educação infantil.
"Dentre as possíveis interpretações
podemos conjecturar, por exemplo, que uma criança mais dependente, pelo
fato de tomar menos iniciativas, terá menos oportunidades de fazer descobertas,
de enfrentar desafios, de buscar soluções por si mesma e de, portanto,
aprender", afirmou Edna.
Importância
dos relacionamentos Em relação ao relacionamento
com os colegas, meninos mais agressivos, provocativos, desrespeitosos, intolerantes
e explosivos tiveram desempenho mais fraco na sondagem de escrita e leitura.
As
pesquisadoras ressaltam que o estudo tem algumas limitações, como
ter sido baseado no julgamento de professores e no fato de ser um correlacional,
não havendo, portanto, uma relação direta entre causa e efeito.
Segundo Edna Marturano, os resultados, ainda que estejam alinhados com
a literatura internacional, estão longe de ser definitivos e precisam ser
qualificados por meio de replicações sistemáticas que explorem
fatores associados, como variáveis do contexto e de práticas pedagógicas.
"Consideramos como contribuição da pesquisa o fato
de ela propiciar uma reflexão sobre a importância dos relacionamentos
na educação infantil. Incluímos apenas alunos que estavam
na escola há menos de um ano e que, portanto, tiveram de se adaptar a um
ambiente estranho, com colegas e adultos desconhecidos", disse.
"Sabe-se
que problemas relacionais detectados nessa fase tendem a se perpetuar nos anos
do ensino fundamental. Cabe, assim, ao professor da educação infantil
a importante tarefa de ajudar a criança nessa adaptação e
ele precisa ser capacitado para a tarefa, por meio de formação teórico-prática
específica", destacou.
|