| Pesquisa
analisa características da população carcerária feminina
em São Paulo
 Fonte:
Agência USP de Notícias (Luiza Caires) Por
mais de seis anos, Hélio Roberto Braunstein conviveu com as presidiárias
da Penitenciária Feminina do Butantã, em São Paulo. Durante
os atendimentos formais e informais realizados, o psicólogo conheceu a
trajetória de vida destas detentas e pôde identificar alguns pontos
em comum em seus relatos. Entre eles, histórias de abandono, evasão
escolar e reincidência de crimes.
Buscando
comprovar empiricamente uma percepção geral de que o sistema prisional
atual não reabilita e descobrir o que há de verdade e o que há
de mito nas motivações para a criminalidade entre as mulheres, Braunstein
analisou quantitativa e qualitativamente parte dos mais de mil depoimentos colhidos
ao longo de seu trabalho, reunido em dissertação de mestrado apresentada
na Faculdade de Educação (FE) da USP. Obteve assim, senão
respostas, fortes indícios sobre a especificidade do encarceramento feminino
no estado de São Paulo.
Criminalidade
Mais de 80% das entrevistadas não haviam concluído
sequer o ensino fundamental, sendo raríssimas (menos de 1%) as que tinham
nível superior. Conseqüentemente, a maioria havia exercido profissões
de baixa valorização social, como trabalhos braçais, de faxineiras,
babás e empregadas domésticas. "Ao mesmo tempo em que isso
derruba o mito de que o desemprego é o principal fator que leva à
criminalidade - já que elas tinham trabalho - também diz muito sobre
a pouca valorização de si mesmas. A idéia geral é
de que o ser humano realiza-se pelo trabalho, mas isso não vale para trabalhos
pouco gratificantes, mal remunerados e desvalorizados pela sociedade", explica
o psicólogo. A maior parte das entrevistadas relatava histórias
de violência e abandono ligadas à figura masculina. O pai, muitas
vezes violento e alcoólatra, abandonara ela e a família na infância,
e a mesma história costumava se repetir depois de adulta, com seu companheiro.
"Aqui a questão que fica é se não estaríamos
tratando como problema de segurança pública um problema que é
na verdade de saúde pública. Reforça esta questão
a grande incidência do uso de drogas entre as presas. Era comum que começassem
a praticar crimes para manter o vício e também pelo próprio
envolvimento com o ambiente do tráfico."
Reincidência
As políticas públicas que visam à prevenção
da criminalidade e da reincidência são praticamente inexistentes
no Brasil. Segundo Braunstein, importou-se sem maiores questionamentos o modelo
predominantemente punitivo implantado nos Estados Unidos, que teve na gestão
do prefeito de Nova Iorque, Rudolph Giuliani, com o programa de "tolerância
zero", seu maior expoente.
O que acontece é que este modelo
infla cada vez mais a população carcerária. Se isso já
constitui um problema para os Estados Unidos, a situação é
ainda pior no Brasil, onde a superlotação e o sucateamento das unidades
prisionais resultam em verdadeiros "depósitos de gente". "Essas
mulheres, vitimadas pela ausência do Estado em suas necessidades, em algum
momento passam à condição de vilãs, cometendo crimes
e sofrendo as conseqüências por isso."
Como medida de
prevenção à criminalidade, o estudioso destaca a necessidade
de um sistema educacional eficiente e que ajude a construir o sentimento de cidadania
e pertencimento a uma comunidade. "A escolarização pode ser
preventiva, mas não qualquer tipo de escolarização. A educação
atualmente privilegiada é a voltada para a competição predatória
e não ajuda a reforçar valores como ética e cuidado com o
outro", esclarece.
As diretrizes para evitar a reincidência
partem do mesmo princípio. Ao contrário do que se pensa, a maior
parte das presas assume a responsabilidade pelo seu delito e não tenta
negá-lo, sinalizando assim arrependimento. Mas a postura exclusivamente
punitiva do Estado não colabora na prevenção da reincidência.
Especificidades Para o psicólogo,
o modelo prisional adotado para todos é baseado no preso masculino, quando
a mulher apresenta peculiaridades que diferenciam bastante sua condição
de infratora e de detenta da do homem. Em primeiro lugar, apenas cerca de 5% da
população carcerária é feminina. Mas este baixo índice
não está relacionado com uma maior complacência da justiça
com as mulheres infratoras; pelo contrário: a porcentagem de mulheres que
cometem um crime e ficam sem punição é muito pequena comparada
à de homens.
A pesquisa apontou que, em geral, as mulheres que
trabalham nas oficinas durante a detenção, o fazem para continuar
sendo a provedora familiar e, ao contrário dos homens, que valorizam a
visita da companheira e da família, costumam recusar as visitas para evitar
serem vistas pelos filhos na situação de encarceramento.
As
relações com os agentes penitenciários e com a administração
também são diferentes, baseando-se mais na conversa e na barganha
do que na disciplina rígida que existe nas prisões masculinas. Ainda,
entre elas, são muito mais comuns os "bate-bocas" e discussões
do que brigas que partem para a agressão física e até para
o homicídio, como acontece entre os presos. Na opinião de Braunstein,
estas diferenças marcantes na subjetividade feminina demandariam políticas
públicas diferentes no tratamento dos detentos e detentas.
6/3/2008 |