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Educação
pelo miúdo da vida

*Marcelo
Cunha Bueno
Preocupa-me
a relação entre educação infantil e
fundamental. Com a mudança do fundamental de nove anos, sabemos
que a educação infantil cedeu um ano para o fundamental.
Deveria ser apenas a concessão de um ano, não de um
modo de trabalhar, de se relacionar. Vejo que muitas escolas simplesmente
se esqueceram daquele último ano do infantil (esta forma
particular e muito afetiva de relação entre professores
e estudantes) e adiantaram conteúdos e fazeres que eram típicos
do fundamental. O que acontece? Acabam por matar um viver infantil
- peculiar a esse tempo -, matam a potência do desenho, das
artes como forma de se expressar e atribuir sentido ao mundo, dessa
relação entre corpo e oralidade, tão forte
no infantil. Adiantam provas, testes, disciplinas, formalizações,
quando a criança ainda está pensando em representar
e entender o mundo por meio das brincadeiras, dos jogos, do miúdo.
Vejo cada vez mais como as pessoas falam sobre a infância
(justo dela, que é um espaço da não linguagem,
ou da afirmação de muitas línguas
a que
dança, a que fala, a que canta, a que brinca). Falam dela
e das necessidades que ela tem. Falam dela como algo que precisa
ser combatido. Esse combate tem como armas as apostilas (as que
robotizam, normalizam, categorizam e emburrecem os pequenos e grandes),
os discursos de preparação para o mundo (aquela história
de treinar para o mundo fora da escola, como se ela estivesse fora
do mundo, à parte dele!), a alfabetização pelo
método x, pela linha y (embate de editoras, mas, na verdade,
quem está dentro da escola, sabe que ler e escrever vai para
além dos métodos), os brincares pedagógicos
(tão distantes de um brincar poético, esse que se
brinca sem saber que se está brincando), uma avaliação
seriada (preocupada mais com os acúmulos do que com as aberturas
que o experimentar o crescimento pode oferecer). Também dão
espaço às antecipações de conteúdos
que são responsáveis por crianças de
2 e 3 anos segurarem um lápis não para desenhar, mas
para treinar letras cursivas, que conformam corpos de crianças
da educação infantil num corpo de crianças
do ensino fundamental
para não dizer ensino médio,
pré-vestibular!
Por isso, digo: vamos aproveitar enquanto as crianças ainda
cabem nos caixotes, dentro de pneus, são leves para balançar,
ou aproveitam o tempo montando histórias!
Pensemos numa educação que se entende (e se desentende)
como relação. Relação entre muitos,
entre corpos, danças, culturas, histórias, espaços,
possibilidades. Uma educação que se faz no hoje. Que
aproveita o momento, que valoriza o presente. Importar-se com o
aqui e com o agora é se atirar nessa caminhada da vida!
Gosto de pensar na imagem das crianças se importando com
o miúdo da vida
com o caminho da formiga, com o tatu
que se enrola, com o pássaro que lança voo, com a
história antes de dormir, com os traços num papel,
com um sorriso que consegue contar até 10, com o brilho nos
olhos do nome recém-escrito, com um abraço apertado
Educação é essa música também!
O mundo que queremos é esse
de verdade! Comecemos,
então!
*Marcelo
Cunha Bueno é diretor pedagógico da Escola Estilo
de Aprender, em São Paulo
18/09/2009 |