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Escola:
entre ausências e permanências, ou uma escola severina

*Marcelo
Cunha Bueno
Outros
chegam à escola. Uma escola que parece ser a mesma de sempre.
Uma escola dotada de seus saberes e poderes. Repleta de dispositivos
classificatórios. Repleta de ferramentas de exclusão e
ordenação: avaliações, diagnósticos,
processos, projetos, trabalhos, relatórios, prontuários.
O mesmo sempre chega à escola.
Um mesmo que se repete infinitamente. Os mesmos que sempre brincam,
pulam, correm, riem, atrapalham e são os mesmos bons e maus alunos
de sempre. Mesmos alunos, mesmas crianças. Mesmos.
A escola já está repleta. Cheia. Constantemente cheia
de escola. Sempre cheia dos mesmos. A história é sabida.
Palavras especialistas frequentam a escola desde que os mesmos, de tanto
cavar, começaram a tirar o deserto escondido a meio de tantos
papéis, didáticas, métodos, docentes, famílias.
Palavras especialistas que calam desertos. Palavras especialistas que
atribuem nomes, padrões, sequências, editoriais... do mesmo,
sempre. Um mesmo que se reinventa a partir do que já está
posto e gasto. O mesmo como novidade. Assim caminha a pedagogia.
Uma pedagogia moderninha-sócio-construtivista-cognitivista. Uma
pedagogia arrastada, enfadonha, mandona e entendiante. Prestadora de
serviços da família moderna, das religiões repaginadas,
do estado maior e da ciência dos neurônios.
O mesmo ganha nomes para continuar com o status de mesmo: hiperativo,
disléxico, indisciplinado. Os dispositivos de manutenção
do mesmo ganham um exército de gardenais, rivotris e outras drogas.
O mesmo é forte, a escola é forte. Os fracos não
têm vez.
Mas a escavação continua. É fato que há
um deserto na escola. É fato que a escola é um deserto.
É fato que, antes mesmo do deserto sair, a escola não
será mais escola. Uma outra será. Será?
Para cavar esse agujero desértico, os habitantes deste lugar
devem se entregar ao labirinto dos discursos. Discursos guardiões,
porteiros que defendem suas entradas, sem saber que podem ser saídas
também. A escavação começa na dúvida.
Começa num frequentar o mesmo. Começa na dança
que surpreende a marcha de todo dia na escola. A marcha da rotina, da
grade curricular, dos dias letivos.
Uma dança disposta em passos leves, flutuantes. Uma dança-ciranda
que descompassa o sabido, que inverte o conhecido com palmas e risos.
Uma dança do esquecimento e do experimento. Uma dança
que contamina o caminhar dos frequentadores de escola. Uma dança
que se faz junto, sempre. Cada passo é um cavocar. Cada passo
é a possibilidade de um cair, de abrir o solo, de se reconfigurar
e compartilhar marcas com os demais.
Quem nos chama a dançar na escola? Não sabemos, mas sabemos
quem nos chama para marchar.
Um alguém chega à escola. Chega chorando, chega devagar,
chega pulsante. Nosso convite marchoso é o de calar o choro,
explicá-lo, encurtar a experiência do choro, daquele que
chora e daquele que escuta, sente. Esse alguém é definido
como criança, como criança que chora, que chora porque
está cansada, com sono, com fome, mal-acostumada. Vai passar,
o riso virá. E, se não vier, o choro vira falta de riso,
infelicidade, problema.
Choro como dispositivo de exclusão, como arma da exclusão.
Uma exclusão que se explica como: todas as crianças choram
quando chegam à escola, mas esse choro que persiste não
é comum. Há algum problema. O choro vira identidade do
mesmo. Os mesmos choros que choram o problema.
Escola como espaço de transgressão. Uma transgressão
daquilo que se anuncia como esperado. Que se pré-vê. Que
se vê antes de se dar a ver. Uma transgressão que garatuja
uma linha de fuga, uma fissura no centro da pintura escolar. A transgressão
como arma de combate à tolerância, às acomodações,
às regras indiscutíveis, à moral docilizante de
uma escola que acredita que sua base, sua estrutura, é a verdade.
A escola gosta e quer combater aquele que transgride. Costura-se a micropenalidades
para construir sua etiqueta. Pune o corpo, as diferenças, a cultura,
com suas próprias invenções discursivas. Homenageia
a todo instante o normal, o feliz, o bem-comportado, o certo, o devoto.
Com seus dispositivos de controle, dispositivos antifuga: avaliação,
rotina, espaço, distribuição de tempos, atividades,
inclusões.
Trangressões que implodem a aura da inclusão, que nos
fazem questionar o significado da pergunta pelo outro.
Com Skliar e com os personagens, ou habitantes da geografia da transgressão,
podemos dizer que a inclusão é um tipo de reforma, assim
como a educação. Uma reforma que busca romper a identidade
da diferença, transformando-a em outro.
Nesse sentido, a inclusão é mais um caso para a geografia
do que para as especializações médico-pedagógicas.
O outro, nessa geografia, contamina os idênticos por metástases,
como diz aquele Skliar, não como metamorfoses. O outro como metáfora
da doença da identidade.
Quem é aquele? O objeto de nosso pensamento, ou um objeto que
existe por que se vê? Objeto-outro que é olhado, ou coisa-ausência
que se "acega" para se encontrar? Perguntamos pelo outro,
ou ao outro?
Mas, e se ele não estivesse lá? E se não houvesse
espaço para ele? Se não houvesse espaços para nós?
Nós e eles efêmeros, sem posições, só
composições, coexistências.
Perguntar sobre inclusão é cartografar esse espaço
fincado em educação. Perguntar sobre inclusão é
localizar os espaços marcados que nos capturam cada vez que paramos
para discutir as indeterminâncias, as efemeridades, as diferenças,
a partir do olhar e da crença de que o outro está ali,
realmente lá! Ele não está, nem esse que escreve,
nem este que lê. Sabemos disso?
Severino entrou na escola. Tinha 7 anos. A mãe já havia
falado que ele frequentara outra escola desde seus 3 anos. Neurologistas,
psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas
e uma infinidade de gente disposta a reinventar uma condição
de ser Severino. Nenhuma escola o aceitava. Já estava com idade
para ingressar no Ensino Fundamental. As escolas davam a mesma justificativa
após avaliar Severino: sem vagas.
Sem vagas significa sem espaço. Sem uma geografia. Escola é
geografia. Uma geografia que inclui para acomodar num meio que se diz
social. Para Severino, não há social possível.
Ele não fala, não escuta, não entende... é
negação, não-afirmação do normal.
Severino é geografia da transgressão.
Severino foi centro de mesa em reuniões. Para falar dele, era
necessário falar antes de sua identidade de excluído,
pela afirmação da inclusão. O falatório
da inclusão conforma Severino. Conforma sua família e
conforta professores.*
Severino encontrou uma escola. Uma escola que aceitou a sua dança
e se propôs a dançar com ele. Uma dança que perfurou
imensos e irreparáveis agujeros. Tocas profundas que invertem
os caminhos de qualquer currículo educacional.
Severino grita, ri, chora, bate, canta... Sempre com intensidades repletas
de sentido. Severino inventa uma escola. A escola, que antes se achava
ilha deserta, está repleta de suas intensidades, está
entregue às invasões bárbaras propostas pelo doce
bárbaro. A queda do império pedagógico proposta
pela presença de Severino traz à escola a possibilidade
de criar outras geografias para educação.
Severino deixa de ser Severino... para coexistir numa educação,
numa escola. Severino é geografia.
Geografia por rizomas. Pequenas raízes que se entrecruzam criando
um espaço trans. Transescola. Um espaço que se multiplica
nos terrenos mais improváveis. Um baile de ideias que se conectam
para criarem novas e múltiplas possibilidades de conexões.
Dançantes, as ideias circulam por espaços marcados, por
palavras exatas e renovam, arejam aquilo que é tido como único,
como verdade. Severino dança em ideias. Esse que nos surpreende,
que desloca os nossos saberes sobre o que se anuncia ser uma criança.
Criança, aquele que ainda não foi linguajado, ensina que
não existe uma criança...

*Não
acho que a discussão sobre o tema não seja pertinente,
principalmente quando temos a desconfiança de que algo passa,
atravessa esse espaço de inclusão... são linhas,
fissuras, rachaduras, bem sabemos. Acho uma tentativa boa... mas perigosa,
pois, a cada aproximação com a quebra, a busca pela resposta
fica mais ávida, superficializando, com as determinações
sobre sujeito, personalidade, psique, as possibilidades cartográficas
de habitação de coletivos. Afinal, o problema do outro
é quem lhe chama de outro. Se ele não estivesse lá,
eu não estaria, ele não importaria. Não são
eles, somos nós... Os que falam, os que ditam, os que param para
pensar, os que acreditam nos outros.
14/05/2009
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