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Jogar
fora não existe

*Danilo
Pretti Di Giorgi
digiorgi@gmail.com
Ouvi
recentemente o economista Hugo Penteado, dono de um excelente blog,
questionando a idéia de "jogar algo fora". Ele lembrou
como temos o estranho costume de olhar o planeta como uma grande lata
de lixo onde podemos descartar tudo. O "fora" na verdade não
existe, se considerararmos que estamos todos "dentro" da Terra
e que daqui não podemos sair, apesar dos delírios tecnológicos
tão apreciados pelos que defendem a manutenção
e até mesmo a ampliação dos níveis de produção
e consumo atuais. Muito daquilo que produzimos e transformamos a partir
dos recursos retirados do planeta vai continuar nos acompanhando na
nossa caminhada.
Aquela garrafinha de PET - uma maravilha da engenharia que teria perfeitas
condições materiais de continuar sendo reutilizada por
muitos anos - não vai "desaparecer" dentro da lata
de lixo depois de consumido seu conteúdo. Vai continuar presente,
num lixão, testemunhando como nós a passagem do tempo,
e por um período de tempo muito mais longo do que a duração
de nossa vida.
Para quem consegue compreender a idéia da Terra como "nossa
casa", é apenas uma questão de escala a diferença
entre nossos lares e o planeta. Afora a questão do tamanho, não
há maiores diferenças. O terreno onde está construída
a casa onde moramos é limitado. É a mesma coisa com a
nossa casa-planeta, o único lugar conhecido onde nossa espécie
tem condições de sobreviver.
Mesmo assim, apenas uma minoria parece estar realmente preocupada com
as conseqüências ambientais da sociedade do consumo, que
a cada ano produz uma quantidade de lixo maior, sem nenhum tipo de cuidado
de larga escala com o seu tratamento. É inacreditável
que ainda se discuta a responsabilidade das indústrias sobre
os resíduos dos produtos que fabricam. É incrível
que se fale tão pouco em redução da produção
e do consumo quando sabemos que nossos resíduos não desaparecem
simplesmente quando o caminhão do lixo passa pela rua onde moramos.
Na realidade o lixo desaparece apenas de nossas vistas.
É desesperador, por exemplo, se dar conta de que a maior parte
da população mundial sequer tem conhecimento dos perigos
ambientais representados pelo descarte inadequado de pilhas e baterias
e que por isso milhares delas continuam se encaminhando diariamente
aos lixões. Pior ainda é testemunhar que aqueles que têm
acesso a essa informação e que têm sob sua responsabilidade
a gestão pública não se dedicam a criar mecanismos
sérios e efetivos para impedir que pilhas, baterias e outras
fontes de venenos continuem contaminando irreversivelmente a terra e
a água. Por que cuidamos tão bem das nossas casas e tão
mal do nosso planeta?
É difícil responder a essa pergunta, mas não é
preciso ser nenhum gênio para perceber que estamos cegos, de cara
na lama. Esse chafurdar, porém, se disfarça bem porque
acontece ao mesmo tempo em que estamos envoltos numa aura de "modernidade"
(no sentido besta do termo), cada vez com acesso mais facilitado a aparelhos
eletrônicos de desenho futurista, cheios de luzinhas que fazem
muita gente acreditar que o máximo da sutileza e da capacidade
criadora humana está nas linhas arrojadas ou no acabamento interno
de um automóvel de "alto padrão" ou numa ampla
cobertura localizada em "área nobre" da cidade, montada
com o que há de melhor na indústria da decoração
de interiores.
Os que não vivem essa realidade, ou seja, quase todos, se alimentam
do sonho de um dia vir a vivê-la ou da chance de ter acesso a
pelo menos alguns desses ícones do consumo. Transformamos-nos
de cidadãos em consumidores. E com isso vamos consumindo o que
resta do planeta, como cupins roendo lentamente as estruturas de um
castelo que um dia virá abaixo.
*Danilo
Pretti Di Giorgi é jornalista
19/8/2008
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