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Para
significar a leitura e a escrita

*Marcelo
Cunha Bueno
Lembro-me
do filme lindíssimo de Walter Salles, "Abril despedaçado",
em que o menino lia seu livro de ponta-cabeça... Lembro-me também
do poeta Manoel de Barros dizer que sua neta, ao ler o livro de ponta-cabeça,
estava deslendo! Coisa linda!
Alfabetização me causa dois sentimentos. O primeiro é
bem chato, já que se trata de uma luta. As escolas podem caminhar
por muitas possibilidades no que diz respeito à alfabetização.
Há um debate entre duas concepções de alfabetização
que estão deixando familiares, professores e crianças
totalmente perdidos. É uma luta por poder, por validade quase
que científica que não ajuda em nada, pois sabemos que,
ao final do caminho, o que importa é que as crianças leiam
e escrevam, mas, principalmente, tenham acesso a livros, a bons livros!
O caminho da alfabetização começa com as crianças
ainda pequenas. Nomes, placas, jornais, revistas e tudo o que tiver
letras é importante para que entrem em contato com mais essa
possibilidade de expressão e comunicação. Isso
é fundamental, por exemplo, para que a criança perceba
que sua escrita ou a escrita dos outros possuem alguma finalidade, para
comunicar coisas... Se não tiver isso, provavelmente escreverá
por obrigação, para prestar contas, e será incapaz
de entender o próprio texto.
Mas também dentro desse caminho das letras, temos a "decifração"
do código. Decifrar o código da língua é
entender essa melodia das letras formando palavras e poesias...
Bem, para essa etapa, cada escola começa quando julgar melhor.
Geralmente, as crianças são alfabetizadas até os
seis anos de idade, no que antes chamávamos de pré e,
hoje, é conhecido como primeiro ano do Ensino Fundamental.
Alfabetizar-se não é fácil. Nem pode ser... pois
entramos em um outro mundo. Imaginem: as crianças acabaram de
começar a se comunicar oralmente, a representar o que sentem
e querem por meio de desenhos e, de repente, vem essa cobrança
da escrita. É muito duro para elas! Por isso, a escola deve ir
com calma, procurando sempre individualizar a coisa. Não adianta
fazer um plano de alfabetização para a sala. Não
vai funcionar! Cada um aprende de uma forma, em um momento. O que não
pode significar que a escola deva ficar esperando ter vontade ou esperar
o trem das letras passar. A escola deve desafiar sempre e ajudar a criança
a superar essas etapas. Isso é seriedade: singularizar e desafiar!
Ler e escrever não se aprende da noite para o dia. Leva um tempo
do tamanho do Ensino Fundamental. Nesse caminho, dúvidas, medos,
escrever espelhado, de ponta-cabeça, com letras trocadas, faz
parte da aquisição da escrita. Quem não se lembra
de quando falava as palavras faltando letras, ou quando falava pato
ao invés de prato? Pois é, com a escrita, acontece a mesma
coisa! As escolas precisam se lembrar disso também! É
muito fácil, diante das dificuldades de escrita e leitura das
crianças, a escola dizer que há um problema de aprendizagem.
Procuro enxergar as coisas como um problema de "ensinagem",
de ensino. Como sempre digo, é muito fácil colocar toda
a responsabilidade na criança e na família. A escola está
totalmente envolvida e é totalmente responsável também
por caminhar por essa estrada.
Mas há um lado bom, contrário daquela sensação
chata de alfabetização. Um lado de descobertas, de desafios,
de re-apropriações dos espaços, de re-significações
do mundo. A criança descobre e acessa um novo mundo. Dá
nomes, inventa palavras, faz o outro ler suas invenções.
Poetiza a escrita com suas letras invertidas e seus aglutinamentos...
Diria que essa alfabetização se dá por trans-palavras.
Arriscar-se pelo universo da escrita é um desafio enorme. Significar
sensações, emoções, idéias por palavras
é sinal de que a criança quer ter o mundo para si. Quando
é podada desse direito, com correções excessivas,
com trocas absurdas (do tipo "se você não terminar
de copiar, vai ficar sem lanche"), a criança deixa de tentar
e passa a reagir à escrita... escrever por escrever.
Gosto de ver as crianças tentando formar palavras, frases, tentando
ler suas idéias. É muito gostoso para os professores participarem
desse momento. Criança aprende a escrever quando as letras deixam
de ter o peso das palavras que querem significar!!!
Conteúdo se ensina com conversas, com discussões, com
outros e muitos registros que não precisam ser somente escritos.
Saber ler e escrever tem relação também com interpretar,
sentir, relacionar, ampliar o repertório e o mundo da escrita.
Aprende-se a ler e a escrever quando a criança lê ou folheia
um livro, quando a criança escuta uma história do professor,
quando reconhece os nomes dos produtos em suas caixas e pacotes.
Ensinar a ler e a escrever, decifrar o código, é obrigação
da escola. A família deve se interar da forma como a escola trabalha
essas questões. Alfabetizar é um trabalho conjunto entre
casa e escola. Escrever e ler é um caminho cultural, é
produção e incorporação de culturas, não
um processo de ordem científica... não nesse caso. Afinal,
mais difícil do que produzir leituras e escritas culturais é
desler o que as palavras querem dizer. Esse é o bom leitor e
escritor, alguém que vá além do que dizem as palavras...
*Marcelo
Cunha Bueno é diretor pedagógico da Escola Estilo de Aprender,
em São Paulo
2/5/2008
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