| Agora,
não mais

*Gilka
Pierry Coimbra g.pierry@terra.com.br
Acordou
atordoada, sem saber bem onde estava.
Imediatamente pulou da cama. Estranho,
nunca se atrasara.
Vai ver o tempo de férias não fora suficiente
para recarregar as energias e voltar.
Voltar ao exercício exaustivo
da competência e da motivação. Do esforço disciplinado
para o trabalho, para as diferenças do grupo, para o individualismo e para
o jogo do poder - sem perder a coerência.
Vai ver era o medo de que,
neste novo ano de trabalho, a indiferença vencesse e se instalasse de vez.
Ela vinha rondando há algum tempo.
Vai ver era o seu inconsciente
boicotando, negando o retorno.
Que nada!
Esforçara-se sempre
em manter o compromisso consciente que havia feito consigo mesma anos atrás.
Ainda
acreditava que o espaço, que lhe cabia por direito, seria preservado nas
discussões, no convívio e no respeito às posições
contrárias que mereceriam ser ouvidas e debatidas.
Sempre soubera
que precisava fundamentar a própria crítica no debate aberto com
os seus, para garantir a lucidez das decisões.
Mais do que nunca,
desejava a concretude inquestionável e irredutível da dignidade
e da auto-estima, da retomada da autoridade e do respeito às crianças,
aos jovens e aos professores.
De repente, lembrou-se da causa do atraso
e sentou-se de volta na cama.
Agora, não mais!
Agora, não
precisa mais!
Por analogia, estava mentalmente construindo as sensações
de um novo ano letivo.
Pensativa, lembrou-se dos colegas. Das alegrias,
das ansiedades do "mundo do trabalho" e deste pequeno texto de Geir
Campos.
Morder o fruto amargo e não cuspir, Mas avisar aos outros o quanto
é amargo; Cumprir o trato injusto e não falhar, Mas avisar
aos outros o quanto é injusto; Sofrer o esquema falso e não
ceder, Mas avisar aos outros o quanto é falso; Dizer também
que são coisas mutáveis... E quando em muitos a noção
pulsar - do amargo e injusto e falso por mudar - Então confiar
à gente exausta o plano De um mundo novo e muito mais humano. Nutriu
a profunda esperança de que seriam capazes!
22/4/2008 |