Agora, não mais


*Gilka Pierry Coimbra
g.pierry@terra.com.br

Acordou atordoada, sem saber bem onde estava.

Imediatamente pulou da cama. Estranho, nunca se atrasara.

Vai ver o tempo de férias não fora suficiente para recarregar as energias e voltar.

Voltar ao exercício exaustivo da competência e da motivação. Do esforço disciplinado para o trabalho, para as diferenças do grupo, para o individualismo e para o jogo do poder - sem perder a coerência.

Vai ver era o medo de que, neste novo ano de trabalho, a indiferença vencesse e se instalasse de vez. Ela vinha rondando há algum tempo.

Vai ver era o seu inconsciente boicotando, negando o retorno.

Que nada!

Esforçara-se sempre em manter o compromisso consciente que havia feito consigo mesma anos atrás.

Ainda acreditava que o espaço, que lhe cabia por direito, seria preservado nas discussões, no convívio e no respeito às posições contrárias que mereceriam ser ouvidas e debatidas.

Sempre soubera que precisava fundamentar a própria crítica no debate aberto com os seus, para garantir a lucidez das decisões.

Mais do que nunca, desejava a concretude inquestionável e irredutível da dignidade e da auto-estima, da retomada da autoridade e do respeito às crianças, aos jovens e aos professores.

De repente, lembrou-se da causa do atraso e sentou-se de volta na cama.

Agora, não mais!

Agora, não precisa mais!

Por analogia, estava mentalmente construindo as sensações de um novo ano letivo.

Pensativa, lembrou-se dos colegas. Das alegrias, das ansiedades do "mundo do trabalho" e deste pequeno texto de Geir Campos.

Morder o fruto amargo e não cuspir,
Mas avisar aos outros o quanto é amargo;
Cumprir o trato injusto e não falhar,
Mas avisar aos outros o quanto é injusto;
Sofrer o esquema falso e não ceder,
Mas avisar aos outros o quanto é falso;
Dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
- do amargo e injusto e falso por mudar -
Então confiar à gente exausta o plano
De um mundo novo e muito mais humano.


Nutriu a profunda esperança de que seriam capazes!


 

22/4/2008

Voltar para a Seção Colaboração dos Leitores
Voltar para a Página Principal