| Por
um brincar antipedagógico

Marcelo
da Cunha Bueno
Quando
eu era pequeno, brincava com ossinhos do frango! Depois que me tornei professor,
os ossinhos do frango se transformaram em giz de cera, tampa de canetinha, borracha...
Cada um desses objetos adultos era um personagem inventado para colorir as manhãs
e tardes de meus estudantes. Inventava histórias cheias de aventuras, em
que a borracha era um terrível cientista que apagava as cores do mundo,
o giz era um mágico que adorava inventar novos truques, o clips era uma
roldana que, apoiada num barbante, deslizava pela sala de aula. Até hoje,
meus estudantes ainda se lembram dessas histórias... Aqueles meninos e
meninas, que hoje são enormes, sorriem para mim como aquelas crianças
que assistiam às minhas histórias... Lembro-me de que, na sala
de aula, esses materiais viviam sumindo, pois as crianças adoravam pegá-los
e inventar histórias também! Havia espaço para os brinquedos
plastificados, mas, quem dominava, eram os "brinquedos garatujas", como
costumo chamar: aqueles que parecem rabiscos, mas se tornam o que os seus olhos
e imaginação querem ver! Era um "professor-brincador"!
Brincar
é uma gostosura! Ao contrário do que muitos educadores dizem por
aí, brincadeira não é trabalho. Brincadeira é brincadeira
e ponto. Brincar na escola é uma delícia! Uma oportunidade fantástica
para que a criança entre em contato com outros colegas e amplie seu repertório
cultural e de jogos.
Adoro ver as crianças pequenas na escola!
Gosto porque sinto ares poéticos nos espaços tão marcados
pela geografia escolar. Elas transgridem qualquer regra do espaço. Fazem
com que pensemos melhor nas utilidades que inventamos para as coisas.
Muitas
escolas colocam a brincadeira em um lugar sério, de ciência. Elaborações
de papéis, vivências de contextos sociais, elaboração
de sentimentos e sensações... Por isso, pedagogizam esse momento
com brincadeiras regradas, com horários e espaços marcados. A criança
aprende a brincar seriamente, o professor ensina a aprender seriamente. Há
gente que diz que brincadeira é "estímulo", seguindo essa
onda da brincadeira como "ciência do desenvolvimento da personalidade".
Inventam brinquedos educativos, como se houvesse algum brinquedo que não
provocasse alguma ação educativa e cultural. Ninguém precisa
do brinquedo repleto de cores, repleto de formas e propostas para aprender algo.
Mas o mundo de hoje faz isso: inventa discursos apoiados em uma ciência
médica para capturar as pessoas, nesse caso, pais, mães e educadores.
Essa
concepção de estímulo é coisa para focas e leões
do zoológico, para brinquedos de plástico, ou coisa que o valha.
É coisa desse mundo cheio de contemporaneidades que nos confunde e nos
faz acreditar que as coisas simples não têm valor. Havia uma criança
na minha Escola que sempre chegava com brinquedos miudinhos ou pedacinhos de objetos
que se transformavam em grandes companheiros de desafios e fantasias. Os melhores
brinquedos não querem dizer nada com suas formas ou propostas, apenas existem
na imaginação de cada um! Nenhuma criança precisa de brinquedos
cheios de penduricalhos e de especialidades para ser feliz! Aqui
na Estilo de Aprender, a escola que coordeno, as crianças de dois anos
brincam muito. No Quintal, na Quadra, com caixotes, tábuas, areia, vão
à horta, dão comida aos bichos, brincam de bichinhos, de casinha,
"artistam" nas folhas e pelas paredes, escutam música, conversam,
cantam, dançam e nos ensinam a ver o mundo com olhares mais infantis...
Isso é cultivar a infância como acontecimento, como algo que não
está previsto e nem colocado em um lugar específico. Esse acontecimento
não pode ser capturado pelos discursos da escola.
Brincar é
transformar as posições que ocupamos, a de professor, a de mãe,
a de pai. Brincar até sermos o que queremos ser... e mudar! Brincar para
ler mundos, para inventá-los. Brincar porque é simplesmente bom
demais!
*Marcelo
Cunha Bueno é diretor pedagógico da Escola Estilo de Aprender, em
São Paulo
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