Uma manhã em Paraisópolis

O forte vento sugere a chegada do outono, crianças sorriem, algumas correm e abraçam a professora, outras se posicionam na roda.

A aula começa com um exercício de relaxamento: inspira e expira, cabeças circulam de um lado para outro, bracinhos se alongam para frente, olhos fechados buscam um mundo colorido… Vejo mãos e pés contraídos de uma menina protegendo seu corpo imóvel; um bicho cabeludo que se arrasta pelo pátio ensolarado, roubando a atenção de uma dupla de meninos. A timidez contrasta com a distração, mas ambas os mantém distantes. Entusiasmo-me quando presencio a mudança de atitude: alguns minutos depois, na aula de artes plásticas libertam-se, concentram-se, relaxam.

E é paixão que se exala das mãos sujas de argila dos 20 alunos. O sorriso vibrante da professora Ana percorre a sala, quando é surpreendida por uma proposta inusitada: "Vamos fazer uma festa para a Rayane!" .

Naquele dia uma menina completava cinco anos. Produziu-se uma farta mesa de brigadeiros, beijinhos, bolo de chocolate, pastéis, cachorro-quente, churrasco com farofa. Com exceção de um menino — um artista de seis anos — que esculpiu um peão de boiadeiro, todos se uniram e prepararam o acontecimento. A sala se encheu de folhas de papel com desejos de felicidades. Após o parabéns, com muita delicadeza, a aniversariante distribuiu fatias de bolo à professora, às auxiliares, à coordenadora e até para a visitante; depois, para os colegas. Um garotinho correu em minha direção com um par de brigadeiros: "Esqueceram, você quer?".

Às onze horas, as meninas se despediam carregando pratinhos de docinhos para oferecer à mãe e aos irmãos que não puderam estar presentes. Rayane levou as bandeirolas com as mensagens.

E eu saí com a certeza desta ter sido a festa mais verdadeira — apesar de não ter me arriscado a comer os quitutes de argila — da qual tive o privilégio de participar. Vivi a transformação do dia e , por que não, da trajetória desse grupo.


A aula descrita no texto faz parte das atividades oferecidas pela Associação Arte Despertar a crianças e adolescentes carentes da comunidade de Paraisópolis. O objetivo da Associação é contribuir para a melhoria da qualidade de vida do indivíduo, usando a arte como instrumento de expressão e de acesso a bens culturais.

Luciane Tofolli Auzani – lutoffoli@uol.com.br

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