Causas mortis

Ainda era cedo quando ele chegou na porta do prédio onde funcionava o INPS. Queria ser o primeiro da fila para tirar uma chapa da costela que não parava de doer, conseqüência de um tombo do andaime quando rebocava uma parede.

Levava um cobertor para se enrolar durante a noite. Afinal, era fim de junho e o frio estava de amargar. Foram chegando outras pessoas e o papo estava animado, cada um falando de tudo um pouco. Lá pelas tantas, os assuntos escassearam. Então ligou o radinho de pilha, presente da filha casada.

A música fez com que ele esquecesse por algum tempo das dores que sentia nas costas desde quando caíra. O estômago começou a doer e ele desembrulhou o lanche de pão com margarina que a mulher preparara.

Às quatro horas começou um vento de chuva e logo caíram os primeiros pingos. Ela engrossou e não havia onde se esconder. Passou tão rápida como chegara, deixando aquelas pessoas molhadas como pintos no terreiro.

De manhã, as portas abriram e as dores estavam mais fortes. Com as roupas já secas, foi informado pela pessoa responsável que as fichas para radiografia haviam acabado. Ele que voltasse no começo do mês seguinte, Sentindo tremores pelo corpo e maldizendo o sacrifício inútil, foi embora.

O pobre homem não voltou mesmo. Pegou uma tosse danada e cada vez que tossia, mais a costela doía. E partiu desta para outra vida.

"Já no fim, o pobre homem pensava": - Será que no meu atestado de óbito constará pneumonia ou costela quebrada?

Ivana Santaella
(3º lugar no Concurso de Crônicas - Taquaritinga -SP - Agosto de 1984)uciano Aparecido Da Rosa,

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