Agonia

No céu, nenhuma nuvem. Apenas o sol que abrasava a região, como se aquele fosse um lugar maldito.
Sentado à porta do casebre, ele olhava desanimado a paisagem; umas poucas árvores desfolhadas pela seca que já durava três anos, a terra toda rachada, algumas ossadas do que fora seu pequeno rebanho, o buraco em que o poço se transformara. Mais adiante, a pequenina cruz marcando o lugar em que enterrara o pobre corpinho da única filha que nascera.

Enrolou o último cigarro de palha, usando o fumo dos tocos que estavam atrás da casa. No cercado, há muito não havia nenhum animal. Um a um serviram de alimento à família numerosa. Só restava um gato esquelético, animal de estimação do filho retardado. Já não tinha forças para miar, estava por pouco neste mundo.

Olhou para dentro da choupana imunda e o que viu mais o desalentou. O fogão estava apagado há dois dias, nada mais havia que pudesse ser cozido. As crianças já não choravam, apenas ficavam quietinhas, os olhos arregalados, como se esperassem ver alguma coisa. Apenas se ouviam os gemidos do filho ruim da cabeça, agachado num canto.

A mulher era uma figura comovente, com o caçula, um montinho de ossos, mamando na teta minguada. Pobre mulher, não era nem a sombra da moça bonita e vaidosa, que se casava cheia de sonhos.

Sentiu o cheiro da morte. Levantou-se e entrou deixando a porta aberta, para que ela entrasse mais depressa.


Ivana Santaella
(3º lugar no Concurso de Crônicas - Taquaritinga -SP - Agosto de 1984)

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