Professores e alunos: uma relação nada delicada

Ricardo Alexino Ferreira é jornalista, professor do curso de Jornalismo da Unesp, Fiam e Uniban e doutorando em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo.

Cada vez mais fica evidente que Monteiro Lobato tinha razão ao dizer que um país se faz por pessoas e livros. Uma realidade que parece estar à margem da preocupação política brasileira. Apesar de ser um dos países que mais publica livros didáticos no mundo, a Política de ensino brasileira não aprendeu que não é suficiente entulhar as escolas de livros, mas ensinar os seus alunos a lê-los, perceber a realidade e elaborar a crítica social.

Ao aguçar o olhar para a Educação se percebe que pouca coisa vai bem. No Ensino Superior, por exemplo, o Exame Nacional de Cursos tem demonstrado que a situação está de mal para pior. Ninguém ao certo sabe que tipo de ensino se deseja e qual o futuro das universidades públicas e particulares. O cúmulo do absurdo tem sido explícito. No afã de ter notas boas no Provão, tem universidade prometendo sortear carros e motos para as turmas que conseguirem tirar "A" no exame. Na verdade, nos corredores das universidades ou faculdades ninguém se entende.

Nos bastidores das salas de aula, não são poucos os professores que dizem à boca pequena que a melhor universidade seria aquela sem aluno. Os alunos por sua vez não se fazem por rogados e dão porretadas para todos os lados. Pronto, mais um semestre letivo e mais guerra. Uma guerra que por não ser declarada não tem como ser detida.

Este fenômeno acontece em quase todos as instituições de ensino superior do país. Pode-se dizer que acontece em todo o sistema de ensino, do básico ao universitário. Uma relação delicada, permeada por mágoas, poucos afetos e distanciamentos provocados e uma constante tentativa de reaproximação. Este tipo de relação já rendeu inúmeros filmes nacionais e internacionais, demonstrando que este tipo de preocupação acontece em todo o mundo, como o veterano Ao mestre com carinho, de James Clavell, tendo Sidney Poitier no papel principal; Mentes perigosas, com Michelle Pfeiffer; Mudança de Hábito dois, com Whoopi Goldberg; o brasileiro Anjos do arrabalde, de Carlos Reichenbach. Muitos outros filmes poderiam ser mencionados, bastando fazer uma revisão filmográfica. Mas todos estes filmes trazem em si soluções fáceis, demonstrando que a instituição de ensino quase sempre está errada e precisando de reformas. No entanto, no cotidiano, a realidade é bem mais complexa.

Professor não é membro da família
No Brasil, existem mais de 900 instituições de ensino superior, envolvendo as federais, estaduais, municipais e particulares. São mais de 1,5 milhão de alunos universitários contra os 33,1 milhões do ensino fundamental e médio. Como já é do senso comum o ensino básico e o que decorre dele está falido. Mas muitos se esquecem que chegam às universidades os frutos deste tipo de ensino. Alunos que foram ensinados que a professora é "tia", totalmente dependentes e que fazem da escola a extensão da própria casa. Ou seja, estende para o ambiente escolar todas as deformidades do ambiente familiar. Daí, o sofrimento de professores de primeiro e segundo graus quando se deparam com os "diabinhos" que não param um minuto sequer de falar ou que vêem na figura do professor algo que pode servir como saco de pancadas. O adolescente vê no professor a personificação mais concreta do poder e, portanto, pode ser execrado. Existem relatos de professores que já saíram chorando de sala de aula sob os aplausos destes alunos; professores que preferem se tornar vendedores ambulantes a colocar um pé dentro de uma sala de aula. Não são poucas vezes que estes professores se vêem sozinhos sem nem mesmo um apoio institucional ou pedagógico. Este mesmo aluno que submete este profissional a tamanho vexame se esconde atrás da argumentação de que está apenas exercendo a sua cidadania, a democracia. Se não gosta do professor o destrói. Uma deformação daquilo que seria uma democracia, uma democracia de mão única. Se é do meu interesse evoco-a, se é para retrair os meus interesses passo a repeli-la. Este protótipo de adulto, se torna o estudante universitário anos depois. Este aluno chega com todos os vícios decorrentes de anos de ensino básico e fundamental.

Palmada útil: impondo limites
Este mesmo aluno foi criado num novo sistema educacional, dos últimos 20 anos. Se antes a educação era uma aberração pelo totalitarismo, no período pós-ditadura, ela passa a ser algo flexível. Os pais já não têm mais o parâmetro para educar. Se a criança faz pirraça, dá pontapés, senta a mão na cara dos pais, o que fazer? Embuídos de uma visão de que a repressão pode criar danos futuros, nada fazem. Esta mesma criança, na escola, não sabe os seus limites. Conforme Marilda Lipp, doutora em Psicologia, "para que a criança aprenda a viver em sociedade ela necessita que os pais lhe mostrem os limites, as fronteiras entre o certo e o errado (...) quando a criança começa a engatinhar ou andar e passa a mexer em tudo, uma palmada na mão será mais eficiente do que repetir mil vezes a mesma advertência (...) quando os pais deixam de punir convenientemente os filhos, muitas vezes pensam que estão sendo liberais. Mas a única coisa que eles estão sendo é irresponsáveis", afirma em seu artigo publicado na revista Veja, de primeiro de maio de 1996, que ainda mantém uma atualidade impressionante.

A universidade é antes de tudo um espaço de conhecimento, em que se busca confrontar as várias linhas de pensamento. É o momento, que por excelência, a pesquisa vai ser o clímax deste confronto. É onde deveria chegar um aluno mais maduro, curioso. Não apenas um aluno preparado para o mercado. Não é papel da universidade reificar o ensino, ou seja, transformá-lo em mercadoria, mas buscar nele a possibilidade de crescimento.

O único problema é que um aluno com toda a sua formação anterior, com um histórico escolar e de vida deformados, não está apto a descobrir esta universidade. Diga-se de passagem que esta universidade também não faz parte de nenhum elo ou paraíso perdido. Ela também está deformada.

Na universidade o aluno deveria ter instrumentos para construir o seu conhecimento. O professor deveria ser um orientador desta busca do conhecimento, mas quem deveria ser o sujeito deste construir é aquele que está aprendendo. No entanto, como o aluno vê a professora como "tia", quer ver o professor universitário como "pai", aquele que vai mostrar o que tem de ser feito.

Vulgarização da democracia
Nas brigas que pipocam em sala de aula ou nos departamentos a palavra democracia é muito falada, tanto ou mais que a palavra água que um sedento no deserto implora. Se perde a noção que a própria reivindicação e o espaço para fazê-la já é o exercício da democracia em si. No entanto, universidade ou qualquer outra instituição de ensino é incompatível com a idéia de direitos iguais e ilimitados. Nem mesmo a sociedade é assim. Em um artigo picante de Cláudio de Moura Castro, na revista Veja, de 18 de setembro de 1996, dizia que "na política, democracia, sim. Mas famílias, exércitos, hospitais e universidades não operam sob regras democráticas (...) a cidadania não é um ato voluntário: como chegamos ao mundo sem ser consultados, direitos iguais para todos são essenciais. Mas os alunos estão na universidade porque querem. Ao entrar, implicitamente aceitaram as suas regras. O mesmo se dá com os professores. Saber física ou biologia não lhes dá o direito de tomar o lugar dos administradores da universidade (...) Os alunos, se soubessem as disciplinas cursadas, não teriam por que ser alunos. Logo, não podem ter a responsabilidade pelos currículos ou pelo ensino, embora possam legitimamente comentar a qualidade das aulas. Dos assuntos acadêmicos, quem entende são os professores. Mas alguém tem de estar acima de todo esse processo e tomar as decisões necessárias: aí está o papel do reitor", afirma.

Por mais democrática que seja, na escola todos têm o seu papel. A própria sala de aula já é uma manifestação disto. Veja o tamanho da mesa do professor e a posição em que ela se encontra para entender o que quero dizer. O professor é pago e deve estar preparado para ensinar. No ensino fundamental e médio ele educa, na universidade ele orienta. Como existem profissionais ruins em todas as esferas, o ruim pode e deve ser substituído.

É preciso que a universidade se reoriente e que os papéis fiquem melhor definidos. Professor ensina, aluno aprende, instituição dá a estrutura. No final, todos aprendem uns com os outros.

** RICARDO ALEXINO FERREIRA é jornalista , professor do curso de Jornalismo da Unesp, Fiam e Uniban e doutorando em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo. E-mail: alexino@uol.com.br

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