Algumas reflexões sobre Livros e Tecnologia

Aldo Pontes

Um primeiro olhar sobre os avanços da tecnologia nos setores de informação e comunicação na sua relação com os livros, mais especificamente com as práticas de leitura e escrita, nos dá a impressão de estarmos diante de um processo de extinção desses últimos.

Diante do quadro que se apresenta, surge a controvérsia: os livros serão ou não suplantados pelos novos produtos da tecnologia?

Na tentativa de incursionar nessa discussão, sem nenhuma pretensão de exaurir tal controvérsia na brevidade de um artigo, nos arriscaremos a refletir sobre tal relação considerando a utilização da tecnologia ao longo da história do livro e das práticas de leitura e escrita no mundo.

Para início de conversa, consideramos bastante plausível fazer algumas ressalvas. Primeiro, ressaltar que segundo o dicionário de Grego-Inglês de Liddell e Scott, tanto a etimologia da palavra "técnica" como a do vocábulo "tecnologia" apresentam a mesma raiz: o verbo grego tictein, que significa "criar, produzir, conceber, dar à luz". Essa constatação nos autoriza a afirmar que, diferente do que se costuma pensar, a palavra tecnologia abrange muito mais do que máquinas, meios, suportes. Consiste sim em um sistema complexo que envolve desde o surgimento de uma idéia até a concretização de seu produto. Sendo assim, o objeto livro, como outros meios, é um produto da tecnologia. Segundo, esclarecer que existe uma íntima e indissociável relação entre a história da leitura e a história dos meios: inscrições em cavernas, tábuas de argila, papiros, pergaminhos, papel, livro, cd rom, computador, Internet, e-book's.

Dentre os meios citados acima, o papel merece um destaque especial. Pois esse produto da tecnologia inventado pelo chinês Cai Lun no ano 105 contribuiu decisivamente para a disseminação do livro impresso no mundo. Outros que contribuíram para esse feito foram os árabes, afinal foram eles que, aprendendo a técnica dos chineses, difundiram essa técnica por todo o continente europeu.

Mas sem dúvida que até o ano 105, a tecnologia possibilitou que muitos meios fossem desenvolvidos pelas civilizações na tentativa de registrar seu cotidiano. Os egípcios, por exemplo, utilizavam o junco para a confecção de seus rolos de papiro; os Astecas e Maias usavam uma segunda camada da casca das árvores; os romanos faziam uso de placas de madeira; os Sumários registravam seu dia a dia em "livros" de argila; na idade média, os escritos passaram a ser grafados em pergaminhos feitos com peles de animais. O interessante dessas práticas é verificar que a cada meio utilizado pelas civilizações, tínhamos novas formas de realização da leitura e da escrita.

No século VIII, a tecnologia legou novamente à China o pioneirismo com a invenção da impressão. Tratava-se de uma máquina rudimentar que posteriormente foi aprimorada pelo impressor chinês Pi Ching em 1041 que inventou uma forma de imprimir letras sobre folhas de papel. Apesar do esforço despendido pelos chineses na descoberta do papel e da impressão, não foram eles os responsáveis pela massificação dos livros no mundo, pois sua invenção não resistia ao uso prolongado o que inviabilizava a impressão em massa.

Para compreendermos a situação do mundo ocidental em relação aos livros até o século XIV, é interessante observar o panorama apresentado por Bill Gates no livro "Estrada do Futuro" de 1995, no qual afirma que antes do ourives alemão Johannes Gutenberg lançar mão da tecnologia para inventar a tipografia no século XV, existia em todo o continente europeu apenas uns 30 mil livros. Aparentemente essa quantidade não parece tão insignificante, mas quando imaginamos que aquela Europa que conhecemos nos livros de História e Geografia como o berço da intelectualidade, até o século XIV só possuía míseros 30 mil livros, é que nos damos conta da relevância desse dado. Isso justifica-se devido ao fato de que até aquele momento, todos os livros eram feitos manualmente, o que significa dizer que o trabalho que se tinha para confeccionar uma cópia era o mesmo despendido para se fazer um livro, daí tamanha escassez. Outro dado instigante são os assuntos que eram tratados na maioria dos livros existentes, basicamente Bíblias e/ou comentários bíblicos. Mas isso também é fácil de compreender se considerarmos que as faculdades de ler e escrever estavam limitadas a restritas elites de nobres, sacerdotes e escribas.

No século XV, constituiu-se na Europa uma classe média alfabetizada que no anseio de acessibilizar os bens da cultura escrita, ora restrito a grupos isolados, desafiaram os inventores a buscar na tecnologia formas de produção da palavra escrita em massa.
Por volta de 1445, Gutenberg projetou uma prensa com capacidade de produção até então inimaginável que em poucos anos elevou a quantidade de livros do continente europeu de 30 mil exemplares para mais ou menos meio milhão de livros. Isso fez com que o altíssimo preço dos livros, não muito diferente dos de nossos dias, começasse a baixar significativamente o que assegurou que outros tivessem acesso aos conhecimentos acumulados durante milhares e milhares de anos de História.

É fato que esse produto da tecnologia desenvolvido por Gutenberg não assegurou que a leitura ficasse ao alcance de todos sem exceção. Mas mesmo garantido o acesso apenas à classe média e seus agregados, era a primeira vez que pessoas que não pertenciam à elite eclesiástica tinham a sua disposição uma grande diversidade de assuntos retratados em livros: religiosos, científicos, clássicos gregos e romanos, relatórios de viagens e outros impressos. Além dos livros, surgiram também diversos panfletos, editoriais e outros papéis impressos que acabaram abalando as bases da religião, da política, da ciência e da literatura da época. O que contribuiu decisivamente para o surgimento de novos e inesperados saberes que acabaram por promover mudanças decisivas no cotidiano.

Como podemos notar, não é preciso falar das maravilhas da informática nem mesmo da concretização do sonho da aldeia global: a Internet. Para verificarmos a importância da tecnologia, acreditamos que basta observar que ao longo da trajetória do livro e das práticas de leitura e escrita, a tecnologia desempenhou um papel fundamental. No caminho percorrido das inscrições rupestres, tábuas de argila, papiro, pergaminho, papel, livro, computador, Cd rom, até o surgimento da Internet e do e-book, a utilização da tecnologia foi e ainda é hoje uma constante, seja viabilizando a descoberta de novas formas de codificação ou possibilitando que novos meios surjam de acordo com as necessidades do homem. O fato é que existe um consenso na atualidade de que nunca se teve tanto acesso ao texto escrito como agora e isso graças à tecnologia. Além do mais, considerando a nova configuração da sociedade onde o domínio da tecnologia torna-se cada vez mais uma questão de sobrevivência, incorrer no erro de combatê-la ou privar qualquer indivíduo do acesso a ela delegando que é a culpada do desinteresse das pessoas pelos livros é estar contribuindo para o surgimento de mais um tipo de excluído, o analfabeto digital.

BILL, Gates. A Estrada do Futuro. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
KUPSTAS, Márcia (org.). Comunicação em Debate. São Paulo, Moderna, 1997.
LIDDELL and SCOTT. Greek-English Lexicon, Oxford, Clarendon Press, 1969.
CHARTIER, Roger. A Aventura do Livro: do Leitor ao Navegador. São Paulo, Unesp, 1998.

Aldo Pontes
Professor de Português e literaturas luso-brasileiras; Especialista em Processo de Ensino-Aprendizagem e em Leitura e Produção de Textos; Mestrando em Educação na área ' Educação, Ciência e Tecnologia' pela Unicamp; Coordenador do Programa de Qualificação em Informática Aplicada à Educação do Modular Campinas em 1999 e 2000; Organizador e coordenador dos Seminários de Leitura e Novas Tecnologias do Programa Nacional de Incentivo à Leitura - Proler, do qual é membro; Webmaster dos Sites: www.letec.hpg.com.br - Leitura e Tecnologia e www.geocities.com/infae - Informática Aplicada à Educação.
e-mail: aldopontes@hotmail.com

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