A PRÁTICA PEDAGÓGICA NA 5ª SÉRIE - Os desafios do ensino de História*

Mírian Silva Gomes **

Estudar a prática pedagógica do professor de História aos alunos de 5ª série, através do curso de Mestrado em Educação da Universidade de Brasília (Faculdade de Educação), na área de Currículo e Metodologia de Ensino, representou o caminho mais coerente para a busca de possíveis respostas às minhas inquietações quanto às dificuldades desses alunos, percebidas ao longo de minha trajetória no magistério.

A opção pela disciplina História teve relação com a minha formação acadêmica. Não tive como objetivo analisar os conteúdos desenvolvidos em sala de aula, mas, sim, como o professor desenvolvia sua prática pedagógica junto aos alunos de 5ª série, ou seja, se essa prática contribuía para a efetivação de um ensino repetitivo e acrítico, ou ao contrário, reflexivo e crítico.

Tendo trabalhado com alunos daquela série e, mesmo através de depoimentos informais, o meu interesse era identificar não apenas as dificuldades dos alunos ao sair da 4ª e ingressar na 5ª série, mas, também, suas percepções em relação aos conteúdos desenvolvidos em sala de aula, quanto ao trabalho pedagógico do professor, como eles percebiam a escola e, principalmente, quais as suas sugestões para o ensino de História. Por outro lado, era necessário, ainda, identificar as percepções dos professores, diretor da escola, coordenadores e psicólogo em relação ao aluno daquela série.

Para a realização do estudo, busquei na Proposta Curricular de História para as escolas públicas do Distrito Federal os aspectos teórico-metodológicos norteadores do trabalho pedagógico, com o objetivo de identificar como o currículo estava sendo operacionalizado na sala de aula; quais as dificuldades do aluno ao ingressar na 5ª série; as percepções desse aluno em relação ao trabalho pedagógico do professor; analisar como os professores de História percebiam a sua prática pedagógica e as possibilidades de oferecer subsídios para a revisão dessa prática.

Pelo fato de a Secretaria de Educação e a Fundação Educacional do Distrito Federal, no documento Currículo de Educação Básica das Escolas Públicas do Distrito Federal, destacarem a adoção de uma filosofia que caracteriza uma tendência crítica de educação e que o ensino de História deve provocar no aluno reflexão de natureza histórica, encaminhando-o para outras reflexões na escola e na vida, percebi o quanto era importante estar no contexto da escola em função dos questionamentos já mencionados.

Portanto, foi escolhida uma escola que atende a alunos da 5ª à 8ª séries, cuja história de sua criação está inserida na própria história da cidade, tendo sido o embrião do ensino público em Brasília.

Pela necessidade de estar em contato direto com a instituição escolar, observando o desenvolvimento da prática pedagógica do professor, ouvindo os interlocutores e analisando documentos, optei pela metodologia qualitativa, pois conforme Chizzotti (1991, p.82) "o pesquisador não se transforma em mero relator passivo" e que "o resultado final não será fruto de um trabalho meramente individual, mas uma tarefa coletiva."

Aliada a esta metodologia, utilizei o Estudo de Caso, tendo vivenciado as três fases que caracterizam esse tipo de estudo: a fase exploratória, a da coleta de dados, a da análise e interpretação dos dados e relatório final, confirmando Nisbet e Watt, que "Sendo uma primeira aberta ou exploratória, a segunda mais sistemática em termos de coleta de dados e a terceira consistindo dos dados e na elaboração do relatório." (Apud Lüdke e André, 1986, p.21)

Quando se fala em História, fala-se, também, do homem e sua existência que, ao longo de milênios, foi-se apropriando da natureza, dominando-a, tirando dela os bens materiais para a própria sobrevivência. À medida que o homem constrói o mundo histórico, ele vai construindo também o mundo cultural e humano e, diante de sua existência, constrói a sua visão e compreensão desse mundo, se posicionando como sujeito de sua própria existência.

Nessa perspectiva, Knauss (1996, p.28) refletiu que "...é preciso considerar que a produção do saber histórico evidencia-se como instrumento de leitura do mundo e não mera disciplina curricular." Daí, percebe-se o quanto é importante que professor desenvolva junto aos seus alunos uma prática pedagógica que não desconsidere o caráter de ciência da História em detrimento do seu aspecto curricular.

Ao considerar a própria presença do homem no mundo e a sua capacidade de reflexão e ação, Kopnin (1979, p.38) confirmando o caráter dialético para a construção do conhecimento histórico, mencionou que "... na dialética entre o processo e conhecimento que se produz sobre ele reside a importância de se constituir uma História verdadeiramente crítica, com funções sociais bem definidas e reformuladas." Portanto, torna-se imprescindível destacar que a História estudada em sala de aula, antes de ser um componente curricular, é uma ciência constituída de passado, mas ao mesmo tempo presente e que, naquele momento, gerações estão sendo formadas através da prática pedagógica do professor.

Por outro lado, sendo o currículo uma construção social do conhecimento, Veiga (1996) mencionou que os meios para que esta construção seja efetivada implicam a interação entre sujeitos com um mesmo objetivo e a "opção por um referencial teórico que o sustente."

Numa visão de educação transformadora, quando a formação do homem implicará um elevado grau de consciência crítica, o professor não poderá desconsiderar as experiências de vida dos alunos e a sua realidade social. Nesse sentido, Moreira (1994, p.7) alertou que:
"Embora questões relativas ao ?como? do currículo continuem importantes, elas só adquirem sentido dentro de uma perspectiva que as considere em relação com questões que perguntem pelo ?por quê? das formas de organização do conhecimento escolar."

Quanto à questão do isolamento dos conteúdos curriculares, Bernstein (1980) chamou a atenção para os danos que são causados aos alunos, pois "não passam dos primeiros estágios da educação escolar", além desses conteúdos não terem significado para os alunos.

Dentre os vários estudos desenvolvidos considerando o alunos de 5ª série, quanto às questões que envolvem o seu desempenho, as práticas avaliativas e a organização do trabalho pedagógico, o ensino de História, as percepções dos alunos e a necessidade de revisão da prática pedagógica, vale destacar: Cabrini, 1986; Domingues, 1988; Sobierajski, 1992; Villas Boas, 1993 e Lisita, 1996. Outros estudos foram realizados quanto ao ensino de História, não especificamente em relação à 5ª série: Leite, 1969; Nadai, 1984; Ivan Manoel, 1988; Baldin, 1989; Abud, 1993; Fonseca, 1993 e Nikitiuk, 1996, demonstrando que esta é realmente uma preocupação desses educadores brasileiros.

Leite (1969), ao relatar como era o ensino de História no curso secundário francês, anterior a 1890, mencionou uma prática que continua presente na maioria das escolas brasileiras, reforçando a atitude passiva e acrítica dos alunos, deixando de aproveitar os momentos da sala de aula para o desenvolvimento de um trabalho pedagógico coerente com a própria reflexão histórica.

Mas quem é o aluno de 5ª série? Quais são as suas dificuldades e percepções em relação ao ensino de História e quais são as suas sugestões para um trabalho inovador? Como esse aluno é percebido pelos professores e demais envolvidos no trabalho pedagógico? Como poderá o professor revisar a sua prática pedagógica no caminho do pensamento crítico e reflexivo?

Villas Boas (1994, p.14), apresentou considerações relevantes e desafiadoras para a prática pedagógica do professor, pois:
"A partir da 5ª série do ensino de 1º grau assiste-se à fragmentação do conhecimento. Cada professor encarrega-se de uma disciplina, cujos conteúdos, geralmente, não se integram. Cada um planeja e desenvolve o trabalho pedagógico e avalia os alunos segundo seus próprios critérios. Cabe aos alunos descobrirem como se comportar em cada disciplina."

Tais reflexões permitiram-me identificar, uma visão preconceituosa da parte dos professores e demais envolvidos no trabalho pedagógico em relação ao aluno de 5ª série, ainda pré-adolescente, mas considerado "imaturo, desorganizado e indisciplinado", conforme depoimentos dos entrevistados.

Na Revista Nova Escola (dez.1996:43), num artigo sobre o ingresso do aluno na 5ª série, foi destacada a seguinte expressão: "Eu me sinto grande e mesmo assim os alunos da quinta série são os menores do colégio. Pareço uma azeitona numa pizza."

Os alunos da escola pesquisada disseram que "é muito difícil conviver com mais de um professor", porque "cada professor tem um modo diferente de ensinar" , que "as matérias são mais complicadas do que na 4ª série", "as provas são mais difíceis" e "há mais indisciplina na sala de aula."

Uma das alunas entrevistadas, em relação à passagem da 4ª para a 5ª série, admitiu as suas dificuldades, mencionou: "...é uma evolução porque na 4ª série tinha apenas um professor e poucas matérias" e acrescentou "eu sinto que cresci por dentro." Uma outra aluna disse: "é como um susto...mas se tivermos calma...". Tais depoimentos demonstraram que os alunos têm consciência não somente de suas dificuldades, mas, também, de suas possibilidades para a produção de novos conhecimentos naquela série.

Na percepção dos alunos, "A escola é muito desorganizada e burocrática" e, segundo os seus depoimentos, gostariam que os professores fossem "mais calmos, alegres e pacientes" , sugerindo que "na hora da explicação o professor não ficasse só falando", mas que "os alunos também poderiam falar e, às vezes, fazer alguma brincadeira para a aula não ficar monótona." Outra sugestão foi no sentido de que "A aula de História seria melhor se fosse com passeios ao ar livre, com filmes, muitos mapas e até mesmo com um pequeno teatro, para compreender melhor..."

Assim, percebe-se que os alunos realmente estão conscientes dos problemas que os envolvem e que a escola e os professores necessitam de uma reformulação no sentido de atender às suas necessidades, desde o ingresso naquela série e no dia-a-dia da sala de aula.

Quanto à prática pedagógica do professor, numa prática pedagógica repetitiva, os conteúdos são vistos pelo aluno como completos, acabados, pois sua função é apenas ouvir e memorizar o que lhe é transmitido. As experiências do aluno não são consideradas. Ele não passa de um mero espectador e a passividade é uma das características desse trabalho pedagógico. Veiga (1993, p.18) chamou a atenção nesse sentido, ao afirmar que "o professor não se reconhece na atividade pedagógica, pois coloca-se à margem da atividade que executa, estabelecendo relações apenas entre as operações que realiza e não entre as pessoas envolvidas." Candau (1995, p.54), quanto ao desenvolvimento da prática pedagógica, destacou que no verdadeiro sentido da "práxis", teoria e prática não podem caminhar em direções opostas, mas num sentido de unidade, "assegurada pela relação simultânea e recíproca, de autonomia e dependência de uma em relação à outra."

Porém, num processo dinâmico, conforme a própria existência do homem, quanto aos conteúdos desenvolvidos em sala de aula, deve ser considerada que a "relação entre o pensamento e ação requer a mediação das finalidades a que o homem se propõe", conforme afirmou Vazquez (1990, p.112). Assim, a prática pedagógica num processo de transmissão/assimilação e produção de um novo conhecimento deverá estar associada à reflexão e ao desenvolvimento do pensamento crítico do aluno.

Após a análise dos dados coletados, foi possível identificar que a prática pedagógica do professor de História na escola pesquisada caminhou para o sentido repetitivo e acrítico, tendo em alguns momentos demonstrado estar indo na direção de uma prática reflexiva e crítica. Por outro lado, as práticas avaliativas e os instrumentos aplicados, no caso as provas e os exercícios, confirmavam uma prática repetitiva e acrítica.

Quanto ao conhecimento da Proposta Curricular de História, os professores alegaram desconhecimento, embora uma professora, com mais de trinta anos de magistério, tenha admitido que "... consultava a Proposta por causa dos objetivos, mas que utilizava mesmo era o livro didático."

Os professores demonstraram preocupação quanto à necessidade de se atualizarem, não apenas através de cursos de pós-graduação, mas, por meio de seminários, encontros, palestras, filmes, debates e reflexões nas reuniões pedagógicas. Desse modo, os professores reforçaram que, ao concluírem a graduação, embora tenham o conhecimento teórico, não sabem como desenvolver a sua prática, diante da realidade da sala de aula.

Tais percepções retratam a importância da educação continuada e a necessidade de um estudo mais profundo sobre a formação inicial do professor de História. Por outro lado, não se pode ignorar que as condições de trabalho do professor têm sido, também, um entrave para um melhor desempenho na sua vida profissional, pela sobrecarga de horas em sala de aula, às vezes em até três turnos e a baixa remuneração imposta a esta carreira profissional.

Sendo este um recorte da minha dissertação de Mestrado, e pelo espaço que deve ser respeitado, muitas outras questões não serão aqui mencionadas, como, por exemplo, o uso do livro didático, a relação ensino e pesquisa, a interdisciplinaridade, a relação professor/aluno, a utilização de material didático e o currículo escolar, analisadas durante a realização do estudo.

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Resumo
Este artigo é um estudo sobre o ensino de História na 5ª série de uma escola pública em Brasília - DF. Analisa a prática pedagógica dos professores a partir da Proposta Curricular para as escolas públicas de Brasília - DF, bem como as dificuldades e pontos de vista dos próprios alunos de 5ª série. Ressalta aspectos do ensino que devem ser revistos pelos professores para formar cidadãos críticos, conscientes e reflexivos.

Palavras-chave: Ensino-5ª série, prática pedagógica, escola pública, História.

Abstract
This paper is a study of the teaching of History in the 5th grade of a public school in Brasilia - DF. It analyses the pedagogical practice of the teachers involved through the "prism" of the Curricular Proposal for Primary, Junior High and Highschools of the public sector in Brasilia – DF, as well as an analysis of the difficulties and viewpoints of the 5th students themselves. It highlights aspects of teaching which can be revised by teachers in order to form critical, conscious, and reflexive citizens.

Key words: Teaching – 5th grade, pedagogical practice, public school, History.

* Texto elaborado a partir da dissertação de Mestrado em Educação, sob a orientação da professora Dra. Ilma Passos Alencastro Veiga.
** Atuando como professora no Departamento de Métodos e Técnicas da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília.

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