| Uma
educação provocadora 
Marcelo
da Cunha Bueno
Crescer
não é fácil, né? Crescer e ficar com ares de criança
é mais difícil ainda. Não falo daqueles adultos infantilóides
que se fantasiam de crianças que não existem e falam estranho. Falo
da poesia nas relações, como as que vivem as crianças. Eu
sempre tento enxergar as coisas, senti-las como quando era pequeno. O mundo era
repleto de surpresas. Surpresas que nos faltam hoje em dia. Surpresas que transformam
diariamente as relações. Coisa boa é sempre descobrir, no
mundo, nas pessoas e nas histórias e geografias que nos cercam, coisas
novas possíveis de serem reinventadas... com olhares, gestos, toques, conversas,
músicas, movimentos...
Ter um olhar de criança, um olhar
que se surpreende, é poder contar com a ajuda dos outros. É saber
que os outros têm um papel fundamental em nossas vidas. É saber que
os outros se flexibilizam por você, que podem entender suas aflições,
entender o que sente e lhe ajudar sempre. Mostrar para as crianças que
a surpresa é a melhor forma de espantar a resignação, a robotização
do pensar e a docilização dos corpos, de ensinar a caminhar por
rotas de fuga, linhas de escape e fissuras que podem nos levar para um campo mais
liberado das relações e mais leve daqueles impostos pelas rotinas
dos dias atuais.
Bem, criança adora deslocar o outro. Coisa que
professor deveria fazer sempre. Deslocar significa fazer com que o outro encontre
seus argumentos e reconstrua o lugar que estava. Criança desloca e, com
isso, cresce! Deslocamento provoca crescimento.
Sempre devemos pensar,
enquanto familiares e professores, que tipo de deslocamento provocamos nas crianças.
Penso sempre na figura de um nômade, de um cigano, de um itinerante. Alguém
que caminha, que se move, que anda em bando, que faz leituras das culturas, que
as acomoda por um tempo e depois vai embora, levando somente o que interessa,
o que é possível se tornar experiência sensível de
vida. Devemos pensar se fazemos o pensamento das crianças caminharem, dançarem.
Pensamentos que vão para além dos territórios marcados das
didáticas educacionais tão pregadas pelos manuais de educação,
pelos receituários da literatura infantil e dos apostilados embrutecedores
que pipocam nas escolas país adentro.
Temos de pensar sempre nas
respostas que oferecemos aos outros, às crianças. Respostas que
só servem para anular a possibilidade de elas continuarem perguntando coisas,
de continuarem a se surpreender com as descobertas. Imaginem quantas descobertas
um adulto pode fazer durante um dia! Mas nem nos lembramos do que descobrimos,
pois, ao descobrir algo, imediatamente o colocamos à prova, checamos, atribuímo-lhe
utilidades e o colocamos na fragmentada caixinha do pensamento. Crianças
não fazem isso... tudo o que descobrem pode virar expressão, canção,
brincadeira, movimento, poesia...
Deslocar e se surpreender! Coisa que
depende daquele que provoca... Professor é provocador! Alguém que
não deve ter respostas para tudo, deve sair do campo da mediação,
que pressupõe respostas e condutas corretas. Um professor-provocador seria
aquele que aparece, lança uma idéia, surpreende aquele que escuta
e sai de cena... para que o outro possa criar formas próprias de se relacionar
com o mundo.
Como as provocadoras-crianças! Criança faz pergunta
e nos deixa de queixo caído, age de forma que não esperamos, foge
a todo custo das categorizações médicas e escolares. Escapa
dos discursos de infância apregoados pelos tratados de uma pedagogia pobre
de cultura.
Ver o mundo com olhares de criança nada mais é
do que continuar a ver o mundo como se fosse a primeira vez... sem colocar as
coisas em seus devidos lugares, pois os mesmos não existem. Sem essa necessidade
por classificar e julgar que os adultos carregam consigo e os faz pensar que colocar
um terno é mais importante do que rolar um bambolê por aí.
É
justamente por conta da falta de habilidade de criar surpresas e deslocamentos
que pais e mães esperam tanto de suas filhas e filhos... e se frustram
tanto! Sem contar com as escolas, que também esperam de seus estudantes.
Esse tipo de relação de expectativa é o que faz com que meninos
e meninas se sintam tão pressionados, tão cobrados e tão
sufocados!
Vamos tentar ver o mundo com olhos de surpresa e com o pensamento
andando por relações. Investir nesse pensamento é acreditar
que a educação vale para alguma coisa. Acreditar nisso é
a chance que damos aos nossos parceiros da vida para que se tornem mais próximos
de nós. Começar com o pensamento que habita as micro-relações,
as pequenas relações. Transformar o que pensamos é enxergar
o todo diferente... ao invés de "mudar o mundo", seria "mudar
um mundo"... um de cada vez. Recriar as relações e se abrir
para a novidade do outro. É a nossa chance de criar um mundo com mais possibilidades
de interação!
*Marcelo
Cunha Bueno é diretor pedagógico da Escola Estilo de Aprender, em
São Paulo
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