Tesouro Português

Gilka Pierry Coimbra
g.pierry@terra.com.br

Ao "fugir" para o Brasil, a Coroa trouxe seus súditos, toda a corte e seu maior tesouro - a Biblioteca Portuguesa: Literatura, Filosofia, Astronomia, Matemática...

Concordar com D. João VI sobre livros - como patrimônio da Humanidade - significa admitir obviedades.

Quero olhar pelo avesso.

Que tesouro completaria o carregamento do Imperador se não tivéssemos a palavra escrita?

Que patrimônio constituiria a Humanidade?

Que Humanidade construiria tal patrimônio?

Bem, ainda teríamos a arte e a música para nossa expressão, documentando cada época, à mercê, ou independente de qualquer interpretação.

Sem a palavra escrita, que rumos adotaríamos? Como registrar nossas descobertas, admitindo então, a possibilidade da ausência da escrita?

Onde e de que forma resguardaríamos as descobertas científicas, as experiências, os costumes, o lazer e o esporte, a etiqueta, a legislação, a política, a religião, os padrões e valores morais construídos ao longo da História?

E a poesia, os contos, os romances?
As notícias, as fórmulas, os teoremas,
as bulas, as receitas médicas e de culinária,
os contratos, as fianças, as finanças,
os estratos, os contra cheques, os contratos,
as plataformas de governo, os planos plurianuais e os projetos,
os manuais dos eletrônicos, e dos eletrodomésticos?

A fala, os sinais, a mímica, o desenho serviriam para realizar a comunicação. Contaríamos mais estórias, lendas e contos.

Falaríamos, por necessidade, mais corretamente e sem dúbias intenções. A clareza teria consistência.

Nossos heróis levariam adiante nosso passado, sem transformarem-se em apenas mitos, significando o presente e promovendo o futuro, mesmo que impregnado de subjetividades.

Estaríamos sob Nova Direção alicerçada pela oralidade, pela fala. A ausência de toda a comunicação escrita, televisiva, internetizada poderia ser impeditiva para a globalização, para manipulação de interesses ideológicos, religiosos e étnicos.

Estaríamos sem e-mail, blog, orkut.
Sem propaganda, inclusive a política. Nosso caminho seria outro. O maior patrimônio da Humanidade estaria na contra mão da escrita.

Que tesouro completaria o carregamento do Imperador nessa perspectiva da ausência da escrita?

Talvez, a clareza, a fidedignidade, o caráter, o respeito com a verdade da fala do outro fossem as opções do Monarca. E nosso maior tesouro seria a palavra dada!

Estaríamos melhores?

Que patrimônio constituiria esta Humanidade?
Que Humanidade construiria tal patrimônio?

Dom João VI, com certeza, responderia:
"Ora, ora, pois, pois - para um bom português, meia palavra basta".

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