Um frio na barriga

Margarete J. V. C. Hülsendeger*

"Eu volto. Tu voltas. Nós voltamos". Para tristeza de muitos e alegria de poucos, as férias chegaram ao seu final. Para muitos, "a volta" significa o recomeço de uma atividade rotineira e sem surpresas, pois, para esses, quem volta, volta ao mesmo lugar, para fazer a mesma coisa.

No entanto, para quem é professor isso não é uma verdade, com certeza. Pois, como disse Freud, o magistério é uma das profissões mais complexas e difíceis de ser exercida. Quem trabalha na educação sabe que essa não é, em absoluto, uma atividade rotineira ou repetitiva. Os desafios são permanentes e se renovam, não só a cada ano, mas a cada novo dia. Assim, para um professor, o verbo voltar tem um significado totalmente diferente.

Não seria exagero dizer que muitos professores, mesmo após anos de trabalho em sala de aula, ainda sentem um friozinho na barriga quando um novo ano letivo está para começar. O que será que lhes provoca essa sensação de estar começando do zero, como se tudo fosse uma novidade? Será que um advogado, um médico ou um bancário têm esse mesmo sentimento quando retornam de suas férias? Não há respostas absolutas para essas questões. Entretanto, talvez possamos entender melhor essas diferentes reações se analisarmos, mesmo que superficialmente, os desafios enfrentados por um professor no exercício de sua profissão.

Em primeiro lugar, ocupando uma posição de destaque na sua vida profissional, está o comprometimento com a formação, não só intelectual, mas também emocional, de indivíduos das mais variadas faixas etárias. Esse aspecto tornou-se tão importante, nos últimos anos, que muitos autores passaram a estabelecer diferenças entre ser professor e educador. Rubem Alves (ALVES, Rubens. Conversas com quem gosta ensinar. 5. ed. São Paulo: Papirus, 2002), por exemplo, compara o professor a um simples e comum eucalipto, enquanto o educador seria um frondoso e magnífico jequitibá. Contudo, se olharmos além da simples questão semântica, veremos que a distinção feita por Rubem Alves pretende apenas exemplificar que ser professor, nos dias de hoje, é muito mais do que simplesmente apresentar algum tipo de conhecimento ("dar aula") a um grupo de alunos. Hoje o papel desempenhado por um professor/educador extrapola em muito os limites da sua sala de aula. Hoje, suas atribuições encontram-se no mesmo nível de importância antes destinado, com exclusividade, à família.

Os desafios não se limitam à tarefa de formar e educar. Além desses, existem todos aqueles problemas que correm paralelamente e que, muitas vezes, são totalmente ignorados por aqueles que não fazem parte do contexto escolar. O trabalho desenvolvido com as famílias é apenas um exemplo. Essa é uma daquelas funções que exige muito tato e sensibilidade, uma vez que muitos pais chegam à escola desconhecendo totalmente as dificuldades e necessidades de seus filhos. Nesses casos, cabe ao professor dar o primeiro alerta para que se estabeleça uma comunicação saudável e produtiva entre a família e a escola, em benefício do aluno.

Do mesmo modo, devemos considerar que hoje temos em sala de aula crianças e jovens muito diferentes daqueles de 20 ou 30 anos atrás. Atualmente, o professor, além de necessitar estar em constante atualização e aprimoramento acadêmico, deve estar preparado para "gerenciar", em uma mesma sala de aula, alunos com problemas (alguns bem sérios) não só cognitivos, mas também psíquicos e emocionas. Situações que obrigam a um jogo de cintura inimaginável para quem não é professor.

Essas são, portanto, imensas responsabilidades. No entanto, são enfrentadas pela maioria dos professores a cada ano e, como já foi dito, a cada novo dia. Será que só isso já não seria motivo suficiente para o friozinho na barriga sentido pelos educadores (mesmo experientes) no início do ano?

Enfim, voltar ao trabalho, enfrentar as dificuldades de um novo ano é tarefa difícil para a maioria das pessoas. Entretanto, para um professor a volta requer uma dose a mais de ânimo e força, pois ele sabe que suas obrigações e responsabilidades serão ainda maiores e que muito mais lhe será exigido.
Portanto, o friozinho na barriga no primeiro dia de aula se justifica, uma vez que a incerteza e a dúvida de estar no caminho certo fazem parte da vida desses profissionais chamados por uns de educadores e por outros, simplesmente, de professores.

*Margarete é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS

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