Final de ano

*Por Margarete J. V. C. Hülsendeger
margacenteno@gmail.com

O final de mais um ano se aproxima e com ele todas as atividades e compromissos típicos dessa época: compra de presentes, festas com a família e amigos, orgias gastronômicas e até mesmo balanços mentais do que realizamos ou deixamos de realizar no ano que está chegando ao fim. Porém, para quem é professor a lista de coisas por fazer é ainda mais extensa: provas para elaborar, para corrigir, revisões e mais revisões de conteúdo, conselhos de classe para participar... E, acima de tudo, decisões difíceis devem ser tomadas com toda a seriedade e responsabilidade.

Não duvido que, nessa época do ano, outros profissionais também tenham sua carga de trabalho e responsabilidade aumentada, mas um professor sabe que sua posição é ainda mais delicada e difícil, pois está tratando não só com seus alunos, mas também com suas famílias. Esse é um tempo de reflexão e de retomada, onde estará em jogo tudo pelo qual o professor lutou durante todo um ano letivo. Seu trabalho e sua competência, no exercício de sua profissão, estarão em julgamento.

É, portanto, um tempo de ansiedade e angústia. Se o julgamento lhe for favorável, sabe que continuará o seu trabalho por mais um ano. No entanto, se este mesmo julgamento lhe for desfavorável, tudo se acabará antes mesmo do Natal.

Muitos poderão estar estranhando essa linha de argumentação, lembrando que outras profissões também sofrem os mesmos julgamentos. Entretanto, a avaliação do trabalho de um professor tem pelo menos uma dificuldade adicional: ele, na maioria das vezes, está submetido ao escrutínio de um amplo espectro de "avaliadores", muitos deles sem a necessária competência ou imparcialidade para realizar uma avaliação objetiva e profissional. Neste grupo pode-se citar os alunos, suas famílias e os administradores das escolas. Todos envolvidos, direta ou indiretamente, com o trabalho desenvolvido pelo professor, mas, nem sempre a par de todos as suas dificuldades e necessidades.

Essa é uma das razões para o elevado nível de angústia sentido pelos professores quando chega o final do ano. É difícil aceitar que um trabalho, não só de um ano, mas, quem sabe, de uma vida, possa passar por julgamentos carregados de tanta subjetividade. Muitas vezes (mais do que deveria ou se recomendaria), o professor é pego totalmente desprevenido recebendo a informação de que, de repente, já não tem mais o perfil exigido para ensinar na sua escola. E quando isso ocorre, a sensação de impotência é imensa e junto com ela aparece um outro sentimento: o de incompetência. "O que fiz de errado? Por que não fui alertado? Por que meu trabalho, de uma hora para outra, ficou tão ruim?". Essas são algumas das perguntas que muitos professores fazem quando se vêem sem trabalho no final do ano.

Não se está dizendo, com isso, que não há professores com dificuldades no exercício de suas funções pedagógicas. Na verdade, eles existem e nenhuma escola é obrigada a manter em seu quadro de empregados pessoas que não conseguem suprir as suas expectativas ou necessidades. O que se está, na verdade, colocando para discussão é a forma ou o encaminhamento de muitos desses "afastamentos" de final de ano. Será que eles são embasados em critérios objetivos, levando em conta o fazer pedagógico do professor? Ou será que outros critérios estão em jogo na avaliação desse profissional? E, finalmente, será que esses critérios estão suficientemente claros para os principais interessados, os professores?

Vivemos um tempo diferente, no qual a educação assumiu um aspecto empresarial, deixando de ser exclusivamente um ambiente de construção do conhecimento, para se tornar uma empresa. Vivemos, igualmente, um tempo no qual o aluno é um cliente e o professor um prestador de serviços. Logo, levantar essas questões nesse momento não parece algo destituído de sentido ou fundamento.

Portanto, a questão não é se o professor deve ou não ser afastado de suas atividades no final de ano, mas quais foram os critérios que levaram a essa decisão. E seguindo essa linha de raciocínio pode-se até voltar a perguntar: será que as pessoas que estabelecem muitos desses critérios de avaliação têm a competência necessária para realizar esse julgamento? É preciso, então, rever a forma como essa avaliação é realizada ou, pelo menos, torná-la mais clara, para que o trabalho do professor possa fluir de maneira mais tranqüila e menos ansiosa.

Sabe-se que qualquer profissional, quando não se sente respaldado, tem dificuldade em se concentrar e, conseqüentemente, em desenvolver a sua atividade com qualidade. E, quando o profissional em questão é um professor, esta intranqüilidade é ainda menos aceitável, pois, como já foi dito, ele lida com pessoas que o vêem, muitas vezes, como um referencial ou modelo a ser seguido. Em outras palavras, ansiedade não combina com um bom ensino.

Para concluir, é importante esclarecer que o objetivo aqui não foi o de defender o indefensável, mas colocar para o debate uma das questões que, há muito tempo, vêm tornando o final de ano de muitos educadores extremamente intranqüilo e angustiante, a saber: que critérios as escolas, atualmente, utilizam na avaliação do seu quadro de professores? Portanto, vamos todos festejar a passagem de mais um ano, mas vamos, também, refletir sobre o tipo de profissional que queremos ensinando aos nossos filhos, existindo, nesse caso, só duas opções possíveis: profissionais tranqüilos e confiantes no futuro ou ansiosos e inseguros, pois não sabem o que esperar do ano que está chegando ao final.

*Margarete é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS

Voltar para a Seção Colaboração dos Leitores
Voltar para a Página Principal