| Uma
outra atmosfera educacional para o Ensino Fundamental
 *Marcelo
Cunha Bueno
Podemos
observar que as demandas das famílias e da comunidade de educação
em geral apontam uma necessidade de haver uma escola que não rompa com
o trabalho e com a forma de se relacionar, que é característica
da escolarização inicial feita pela Educação Infantil.
Uma relação mais próxima ao "cuidar do outro",
ao relacionar e combinar educação e cuidado de forma afetuosa. Tal
combinação parece não ser mais um segredo de sucesso, pelo
menos entre aqueles que falam de educação. Sucesso que está
nos avanços e conquistas feitas pelas crianças e professores.
Sabe-se
que a atenção desprendida nos primeiros anos de escolarização
das crianças é fundamental para que as mesmas entendam as dinâmicas
sociais e culturais envolvidas na esfera escolar. Um tempo mais vagaroso, mais
ligado às atmosferas relacionais, às produções artísticas
que representam o mundo, às formas mais leves e soltas de lidar com os
problemas do dia-a-dia, compõe os motivos quase musicais da Educação
Infantil. Mas isso parece durar pouco, agora, menos ainda...
Muitas escolas
estão no intento de "apostilar" seus estudantes desde os primeiros
anos de escolarização. Com um discurso de que seus seguidores terão
mais sucesso e mais garantias no mundo contemporâneo, apostilam o pensamento
de professores e de estudantes, prestando um desserviço à produção
de diferentes culturas e às singularidades do universo social.
Não
acredito em escolas que apostilam seus estudantes. Matam a possibilidade de múltiplas
conexões conceituais feitas a partir de um conteúdo que, aparentemente,
é fixo. Matam a possibilidade da criança pensar para além
da escola, matam a possibilidade da criança se tornar efetivamente um estudante,
que vai além das perguntas marcadas por quem escreveu o livro. Eu jamais
confiaria em algo que serve tanto para mim, que moro em São Paulo, como
para uma pessoa que mora na comunidade ribeirinha "x" não sei
de onde. É muita arrogância e petulância dizer que o ensino
é global! Cada um lê o mundo de forma diferente e merece ser respeitado
por isso. Merece um estudo que ofereça a possibilidade de relacionar o
que se conversa com aquilo que se vive. Além disso, quem escreve a apostila
é alguém que recorta o mundo conforme julga conveniente... Isso
é processo de alienação, é massificação
cultural, é robotização, é silenciar a população,
é emburrecer as relações (entre professores e estudantes,
entre estudantes e estudantes e entre comunidade e escola). É matar as
singularidades para criar pessoas que respondam adequadamente às perguntas
dos chefes... É prestação de contas, e não educação!
Pensando
em uma educação que leve em conta as diferentes formas com que os
jovens se relacionam com o mundo, conforme o lugar que ocupam dentro de cada núcleo
cultural, pensando em uma educação que abra novas possibilidades
conceituais e compartilhe com o estudante a responsabilidade da produção
de conhecimentos e de relacionar diferentes conceitos, alargando as posições
especialistas impostas pelas disciplinas, tal como conhecemos, podemos pensar
em um Ensino Fundamental outro... Experimento,
junto com familiares, estudantes e professores que apostam nessa possibilidade
e perspectiva ampla de se encarar educação, uma forma diferente
de fazer acontecer o Ensino Fundamental em seus anos iniciais. A Estilo de Aprender
é uma Escola que vai além dos territórios marcados pelos
discursos especialistas e das relações pautadas em concepções
ultrapassadas em educação.
Vale dizer que entendo o espaço
escolar e a educação como sendo um cuidado com o indivíduo
que está sob nossa responsabilidade. Cuidar e educar caminham juntos dentro
da Escola e estão implicados em todas as nossas reflexões pedagógicas
sobre a construção do sujeito.
Cuidado começa na forma
como organizamos os espaços, como formamos os professores, acolhemos as
famílias, encaramos parcerias, conversamos com nossos estudantes, tratamos
os assuntos e as questões de cada um e de como nos relacionamos com o tempo.
A sala de aula é tempo e espaço.
Nosso objetivo é
formar estudantes capazes de se implicarem com o conhecimento de maneira a produzirem
outros saberes na relação entre o conteúdo aprendido e as
suas vivências. Consideramos fundamental a relação entre as
áreas de conhecimento estabelecidas pela Escola para que a produção
de conhecimentos não se limite ou se engesse à sala de aula. A Escola
passa a ter parceiros de trabalho. Seu espaço se amplia para espaços
externos (casa, parques, museus, ruas etc.) e procuramos envolver outros sujeitos
nesse caminho (familiares, amigos, vizinhos, artistas, personagens etc.). A educação
ganha um sentido, ganha emoção, ganha envolvimento, cores e movimento.
A expressão é a fonte desse trabalho: gestos, sons, silêncios,
palavras, letras, números, textos, abraços, risos, choros. São
meios de conhecer e de se implicar com o mundo que nos cerca. Dessa forma, qualquer
atividade desenvolvida na Escola não se restringe a uma ação
isolada. Comunicação é afeto à medida que alguém
é afetado por ela.
Uma forma de carinho, de demonstração
de importância para o mundo, é a avaliação. Não
a avaliação julgadora, punitiva, classificatória, mas aquela
que abre possibilidade para novas perspectivas que vão além de provas,
testes e exames. A Estilo de Aprender produz outros discursos avaliativos que
permitem aos estudantes darem voz aos seus saberes e conquistas.
Pensar
no dia-a-dia é uma forma de demonstrar afeto e cuidado. Uma maneira de
demonstrar atenção e respeito pelo que o outro vive. É cuidar
de um espaço de conhecimento do outro, que se dá justamente porque
espaços e relações estão claras e definidas. A rotina
do dia divide-se em momentos de discussão sobre diferentes conceitos, trabalhos
com os conteúdos dos temas e produções. Os professores elaboram
as atividades para seus Grupos conforme os temas discutidos. Produzem também
atividades específicas para cada um de seus estudantes levando em conta
as necessidades e gostos dos mesmos. Ao final dos períodos, os estudantes
levam para casa todos os seus trabalhos para serem guardados como registro do
que estudaram e como pegadas dos caminhos "andarilhados" por eles. Para
cada disciplina, são produzidas atividades que visam fazer com que os estudantes
consigam ler e interpretar os textos e produzir conhecimentos por meio de suas
sínteses e explanações sobre o tema em questão. Visam
também fazer com que cada um seja capaz de mobilizar seus amigos para ampliar
suas hipóteses e desafiar o que aprendeu a respeito do que foi ensinado
e quais os caminhos que escolheu para conectar diferentes conceitos.
Proponho
e vivemos também uma relação diferente com o trabalho com
as disciplinas. Na Estilo de Aprender, os conceitos são atravessados por
múltiplos pontos de vista. Pluralizar as disciplinas significa abrir mão
dos discursos especialistas que produzem lugares marcados e verdades absolutas
e que impossibilitam as conexões entre diferentes campos. Tirar o tom de
especialista que explica é multiplicar as perspectivas de se entender,
conhecer, ampliar os conceitos. Por isso, História, Geografia, Português,
Matemática, aqui, são Histórias, Geografias, Estruturas e
Literaturas da Língua Portuguesa, Matemáticas e, ainda, Discursos
Relacionais, Estudos Culturais, Expressões do corpo, das artes, da música...
Um
conteúdo que, teoricamente, seria de História (aqui na Estilo, Histórias)
pode ser contado pelo ponto de vista de um artista, de um cientista, de um jornalista,
assim por diante. Nossa intenção é trabalhar os conteúdos
de cada ano ampliando as possibilidades discursivas dos mesmos, formando redes
de conhecimento. Redes discutidas, transformadas, costuradas numa teia de conceitos.
Todos
os dias, o Grupo se reúne para discutir assuntos disparados pelas vivências
de cada estudante, pelo que trouxe de casa, viu na televisão, escutou na
rádio. São discussões que aproximam os estudantes das organizações
sociais das quais fazem parte, promovendo uma postura questionadora e indagadora
das posições marcadas pelas verdades. O professor procura mediar
as situações, preservando sempre o direito da fala e do não
querer falar. Diariamente, também após a leitura de algumas notícias,
estudantes e professores escolhem temas importantes que marcam os acontecimentos
na cidade, no país e no mundo. As notícias da semana acabam se tornando
fonte para as discussões em grupo. Estudantes e professores são
os responsáveis por alimentar essa atividade trazendo também dicas
e recortes de notícias de casa.
A partir de assuntos propostos pelo
professor, os estudantes se organizam em pequenos grupos de estudo e compõem
diferentes registros sobre o que aprenderam, valendo-se de múltiplas linguagens.
Vale ressaltar a importância desse espaço para a produção
de variados registros para além do escrito. Os estudantes passam grande
parte do tempo produzindo diferentes escritas, o que é fundamental para
que consigam fazer o exercício de pensar para além delas. Um desafio
que exige grande concentração e repertório. A pesquisa conta
com a mediação dos professores, que ajudam seus estudantes a fazerem
varreduras bibliográficas, organizarem textos, imagens, produzirem trabalhos
em multimídia, fazerem uso de outras tecnologias, como a fotografia, vídeo
e som.
Propomos também uma outra relação com a escrita,
além daquela convencional, importante para a verificação
dos usos das regras e conceitos de ortografia, pontuação e gramática.
Uma escrita descolada da intenção de relatar, informar, produzir
verdades. Uma escrita leve, solta, repleta de impressões dos olhares singulares
de quem a produz. Uma escrita artista, que dança. Os estudantes possuem
espaços para produzirem essa escrita tão importante e tão
esquecida para quem quer se presentear com as próprias palavras. Ela pode
acontecer em diferentes momentos, pois não quer prestar contas a ninguém.
Sua "prática" é fundamental para produzirmos escritores
liberados dos discursos homogeneizadores.
Essa proposta de educação
pressupõe uma relação íntima do professor com a escola,
com os estudantes, com a cultura. Pressupõe uma implicação
com a escolha de ser professor e com a escolha de formar professores feita pela
Escola.
Por um pensamento mais leve, mais amplo dos discursos pedagógico-curriculares,
pensamos em uma outra atmosfera educacional. Pensamos em um currículo que
trava uma guerra com o ideal enciclopédico (que domina há tanto
tempo a forma como pensamos) e dá espaço para um Plano de imanência
geo-educacional, que opera nos dissensos da multidão, da multiplicidade
de povos e de variedades de matéria. "Essa
educação pressupõe saberes ambulantes que possibilitam a
absorção e oferecimento de experiências, exposição
de manejos, mostras de material, variações de matéria. A
educação menor é uma prática desterritorializadora,
algo em vias de se fazer, nunca sobre aquilo que já está dado, mas
sempre com o que está para chegar. Por isso, envolve um certo mistério,
uma complicação que é seu charme, pois beira o impossível,
ao se constituir junto a um saber que ainda não é, mesmo que, para
entrar em uma imagem do pensamento, de algum jeito, já tenha sido"
(TADEU, T., CORAZZA, M. e ZORDAN, P., 2004). *Marcelo
Cunha Bueno é diretor pedagógico da Escola Estilo de Aprender, em
São Paulo
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