| Escola:
Espaço de Trans-formações
 *Marcelo
Cunha Bueno
Pensar
Escola...
Tantas imagens e representações... Imposições
maiores... das leis, referenciais, parâmetros, currículos, projetos,
planejamentos... Imposições menores... dos olhares, dos gestos,
das falas, das expectativas, da prestação de conta de sala de aula.
Como
é possível transformar um espaço que se encontra - perdido
- totalmente capturado por discursos de controle e de asujeitamentos?
Ações
medidas, confinadas num pensar entorpecido pelas práticas exatas dos receituários
de palestras, congressos e assessorias de formação em educações-show.
O espetáculo da educação está por todas as partes!
A Escola é prisioneira dos grandes ideais, dos grandes projetos, das grandes
políticas.
Esse espetáculo acontece justamente por termos
medo de nos entregar ao estudo, de ler um livro de letras miúdas, por não
querermos nos perder, sofrer instabilidades, desconcertos e incertezas. Facilitam
a vida... mas empobrecem as relações. Profetas, magos, supereducadores
estão por todas as partes afagando e acariciando as angústias e
as cabeças dos tão sofridos professores. Professores precisam de
estudo, não de consolo!
O que é preciso aprender na Escola?
O que um professor pode aprender em uma escola? Pergunta gostosa de ser respondida! Professor
precisa se espalhar por culturas. Freqüentar museus, cinemas, exposições,
teatros, ficar em casa lendo livros, assistindo a filmes. Precisa conversar com
companheiros de trabalho e não falar de trabalho, precisa ver a escola
com olhares mais descolados das obrigações docentes. Precisa ser
escutado, de corpo e alma. Precisa ter um espaço dentro de sua Escola para
criar, desenhar, rabiscar, pintar, dançar, cantar, ouvir, se emocionar...
Precisa de espaço para relacionar e criar conceitos. Precisa se afastar
das representações de escola. Apagar a escola. Afastar-se dela para
poder habitá-la.
A educação exige espaços.
Espaços múltiplos, leves, livres, fora... Territórios de
passagem e desapegados do tempo escolarizado. Os habitantes desses espaços
podem circular por conceitos fechados, ampliá-los com outros conceitos,
idéias, imagens, sons... Podem inverter palavras, podem desenhar idéias,
podem abrir a visão para ver as coisas com os olhos de outros lugares,
que parecem não lhes pertencer.
Para habitar esses espaços,
não é preciso bagagem, somente se abrir para a criação.
Não é preciso receitas prontas, planejamentos semanais, boletins,
relatórios, avaliações diagnósticas, apostilas...
Criação como possibilidade de invenção, de resistência.
A criação não é apenas criar algo novo a partir do
velho ou do que já existia. Quando se fala em autoria em sala de aula,
fala-se de resistência. O poeta-inventor cria outros espaços: não
determinados, espaços marotos. Espaços ágeis que escapam
aos discursos hierárquicos da Escola.
Criação e resistência
como miragem. Imagens desfocadas do "fazer-pedagógico". Imagens
de paisagens educacionais que apenas alguns vêem. Imagens não projetadas,
pois não podem ser focadas. Imagens geográficas...
Resistir
em sala de aula quer dizer ir além do que o outro diz ou impõe como
correto de ser feito-pensado. Resistir é criar outras possibilidades de
entender os conteúdos fechados e prontos das metodologias do aprender.
Resistir é se desapegar do futuro e do saber! Sim, do saber. Aquele templo
montado em volta da escola que não permite ou admite erros ou escorregões.
Não admite desculpas ou humildade. Não consegue andar sozinho, não
admite solidão, sofrimento ou padecimento. Sabemos e conhecemos a pressão
que os "saberes" nos colocam. Uma segurança - falsa - de estabilidade,
de sucesso de futuro.
Resistir é criar, é criar exclamações!
Em
escola, vive-se pouco o presente. Passado que acumula saberes e fazeres construindo
futuros estares... Futuro não pode existir em Escola. O que importa para
a criação ou resistência é se preocupar com o hoje,
o agora, o aqui. O agora importa porque é único, um presente das
possibilidades, da multiplicação. Momento de surpresas, momento
que provoca sons que ecoam. Momentos de experiência! Não podemos
ter isso vivendo no futuro. O aqui, pois só ele importa. Um espaço
fronteiriço com possibilidades infinitas. Aqui e agora, presente e acontecimento,
experiência e vida, potência e resistência... Escola como
espaços de trans-formações é a multiplicação
de saberes... Saberes não marcados, mutantes frente às experiências
de cada um. Trans-formação e estudos... Estudar é abrir-se
para o hoje, para a criação, para o que nos passa e acontece...
Estudar e desfrutar de saberes móveis, nômades, andarilhos. Saberes
que, a cada olhar e palavra, modificam-se, assumem outras formas e composições.
Pedem, clamam por associações e costuras. Precisam do outro para
existir, resistir e criar... Criação é reticências...
Reticências
e exclamações...!!! Uma vida de pausas e sustos. Silêncio!
A escola precisa de espaços silenciosos. Espaços sem argumentações
teóricas, sem explicações para tudo o que lhe acontece. Precisa
se calar um pouco. O silêncio abre incômodos, deixa expostos os corpos
em suas idéias, faz com que procuremos olhares e encontremos cumplicidade.
Silenciar, calar e interromper o diálogo com uma conversa de gestos, olhares
e, principalmente, sensações...
*Marcelo
Cunha Bueno é diretor pedagógico da Escola Estilo de Aprender, em
São Paulo
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