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reunião  *Margarete
J. V. C. Hülsendeger margacenteno@gmail.com
Você
sabe o que é uma reunião pedagógica? Não! Então,
eu vou explicar, ou pelo menos vou tentar.
É uma reunião
na qual estarão presentes professores e pedagogos (orientadores e coordenadores)
com o objetivo de discutir temas relacionados com a educação. Geralmente,
os assuntos têm relação com a problemática enfrentada
pelos professores no seu trabalho diário, mais especificamente, com questões
ligadas à aprendizagem e ao estabelecimento de limites na sala de aula.
No entanto, acontece que às vezes - muito às vezes -, o foco muda
e o tema do debate deixa de ser o aluno e passa a ser o professor.
Outro
dia, tive a oportunidade de participar de uma reunião assim.
Tudo
começou da maneira tradicional, ou seja, discutindo-se a dificuldade de
se desenvolver um trabalho de qualidade sem a devida autonomia ou o necessário
respaldo na tomada de decisões. As questões iniciais eram bem puntuais:
até que ponto os professores têm autonomia na suas decisões?
Até que ponto os profissionais de uma escola se sentem respaldados quando,
no exercício dessa autonomia, assumem uma posição?
Não
preciso dizer que o sentimento geral foi o mesmo: existe, sim, um temor (nem sempre
verbalizado) na hora de se tomar decisões ou de se assumir posições
mais firmes. Temos, muitas vezes, dificuldades de nos posicionar de forma clara,
ficando tudo no nível da teorização e muito pouco sendo aplicado
na prática. Foi unânime, também, o sentimento de que a ausência
de um discurso claro torna inseguro não só o professor, mas também
o aluno, principalmente quando esse percebe que seu professor não tem o
respaldo necessário para tomar decisões diretamente relacionadas
com o seu trabalho.
Mas todo esse debate não era novidade para nenhum
de nós. Estamos envolvidos com essas discussões há muito
tempo, sem nunca chegar a um acordo ou a uma solução minimamente
satisfatória. Do mesmo modo, já sabíamos serem esses "referenciais
obscuros" os responsáveis pelo aumento da fragilidade e da insegurança
na maioria dos professores.
O que tornou, no entanto, essa reunião
diferente, para não dizer especial, foi o momento em que passamos a discutir
não mais o que nos está sendo exigido, mas como nos sentimos em
relação a isso. Sentimentos que raramente expressamos, pois temos
medo de expor nossas dificuldades.
Como explica Perrenoud (2001), o compartilhar
acabou tornando-se, para o professor, um sinal de incompetência, levando-o,
em muitos momentos, a se impor uma solidão da qual tem, hoje, dificuldades
de escapar. Do mesmo modo, o professor passou a acreditar que tudo se resume,
por exemplo, ao que é capaz de realizar dentro de uma sala de aula. Em
outras palavras, apesar de todos os discursos, ele sente que ainda é avaliado
apenas por sua capacidade de gerenciar os problemas sem o envolvimento de muitas
pessoas, mesmo que esteja ansioso, muitas vezes, em dividir com seus colegas suas
angustias e ansiedades.
No entanto, nessa reunião alguns professores
tiveram a coragem de se expor, colocando para fora seus medos, incertezas e inseguranças.
Ouviram-se declarações como essas: "estou com medo", "muitas
vezes, não quero vir trabalhar", "não durmo bem quando
penso que no dia seguinte tenho de dar aula para esta ou aquela turma", "tenho-me
sentido só". O interessante é que ninguém se mostrou
surpreso e, nas expressões da maioria, percebia-se a mesma mensagem: "eu
também me sinto assim, mas ainda não estou pronto para falar!".
Foram, portanto, momentos difíceis para todos, para os que falavam e para
os que ouviam.
Mas, ao contrário do que se possa pensar, não
se transferiu a responsabilidade por esta situação para ninguém.
Percebemos que a responsabilidade é nossa. Só nossa. Concluímos
que há algum tempo os professores deixaram de ser um "corpo"
passando a ser um grupo fragmentado e, conseqüentemente, fragilizado. Reconhecemos
que o medo de sermos taxados de incompetentes tem sido o grande responsável
pelo nosso isolamento, impedindo que nos reforcemos como grupo. Temos cometido
o grave erro de alimentar essa solidão com o contínuo julgamento,
tomando como parâmetro o que os outros esperam de nós e não
o que estamos em condições de dar. Desaprendemos a identificar e
a valorizar os nossos espaços. Deixamos de ser um "corpo" para
nos tornarmos uma parte indefinida e sem identidade.
Entretanto, apesar
de todas essas conclusões (ou será que foram reflexões?),
esse foi um momento de reforço para todos os que participaram dessa reunião.
Muitos, a muito custo, disfarçaram sua emoção. Transcendemos
os discursos, conseguindo compartilhar nossas ansiedades e exteriorizar o sofrimento
há muito tempo escondido por debaixo de uma máscara de competência
que pouco diz sobre a pessoa intitulada professor. Percebemos que a tão
desejada autonomia também passa por definirmos nossos papéis e limites
de atuação dentro da escola e que essa definição não
diminuirá essa autonomia, mas a fortalecerá. E, finalmente, sentimos,
mais do que percebemos, que quando o professor conseguir romper com essa idéia
de que competente é aquele que silencia diante de seus problemas, talvez
possamos, como CORPO DOCENTE, não só compartilhar mais, mas também
sofrer menos.
Referência PERRENOUD,
Philippe. Ensinar: agir na urgência, decidir na incerteza. Porto
Alegre, Artmed Editora, 2001. *Margarete
é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre e
Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS
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